EXORCISMO CIGANO
Parte IV
(Leia antes Parte I, Parte II e Parte III)

por Asséde Paiva
postado no Benficanet em 14/12/2018

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O PODER DAS TREVAS 

Iria mostrar a que veio. Lúcifer traçara um plano. O homem não lhe interessava diretamente, tinha o passaporte garantido para o Inferno. Pretendia atazaná-lo através dos parentes e nada mais fácil do que se apoderar de Rita.

A primeira vez que ela o viu foi na varanda, no primeiro degrau de pedra, usando a capa preta de avesso vermelho. Lábios finos, sardônicos e sensuais; o sorriso maldoso; dentes pontiagudos e olhos vermelhos como fogo. Uma espécie de turbante encobria os chifres. Os pés fendidos eram dissimulados por babuchas vermelhas.

Foi com esse visual nada simpático que eles se encontraram face a face. Ele queria assustar, conseguiu. Ela havia aberto a porta da saleta. Parou repentinamente, com o pé ainda no ar. A imagem terrifica a paralisou encostada no portal. Abriu a boca, sem conseguir emitir som. Os olhos esbugalhados fitavam aquela figura. Em segundos o pretinho começou a crescer... crescer... crescer... e a inchar. Ficou mais alto do que uma paineira, mais ainda do que um coqueiro e desapareceu. Pálida como um cadáver, ela voltou para dentro de casa. A mãe observou o estado catatônico da filha. Algo estava errado. Segurou-a pela mão e perguntou-lhe o que tinha acontecido. Ela não conseguia articular um som, estava fora do ar.

— Você está sentindo alguma coisa?

Como não obteve resposta, deu-lhe um safanão, mas não houve reação. Pegou-a no colo com força sobrenatural e levou-a para a cozinha. Chamou as empregadas. Rápidas, esfregaram-lhe os pulsos e bateram-lhe nas faces.

Lentamente, voltou a si. Quando se recuperou, com a voz entrecortada por soluços, contou o que vira. Como se esperava ninguém acreditou nela. Julgaram que fora uma ilusão, uma fantasia ou uma alucinação, coisa de criança adolescente.

Decorreram alguns dias sem novidades. O pai, como sempre, invocava o demo. A mulher admoestava:

— Para de xingar, homem! Olha que ele vem!

Às seis da tarde, dona Almira costumava rezar o Ângelus. Aquele dia não foi diferente.

— O anjo do Senhor anunciou a Maria. Ela concebeu do Espírito Santo...

Foi interrompida por um grito:

— Ah! Ele está lá na laranjeira me chamando. Mamãe me acode!

— Eis aqui a Serva do Senhor, Ave-Maria...

— Ele está acenando para mim.

— Que é isto Ritinha? Quem está na árvore?

— É o que estava na varanda, o homem preto!

Dona Almira correu o ferrolho na porta e fechou a janela. Ajoelhou-se em frente a um crucifixo e tentou continuar:

— Faça-se em mim segundo vossas palavras. Ave-Maria... E o verbo se fez carne, e habitou entre nós. Ave-Maria... Rogai por nós, Santa Mãe de Deus...

Foi impossível terminar.

A menina fora tomada, ria com escárnio da oração.

— Deixa desta chorumela, dona. Esta ladainha não vale nada. Eu sou mais forte; quero levar a pequena.

Almira, mal teve tempo de abrir a porta, caiu desmaiada entre as ombreiras. Os empregados corriam atarantados por todos os lados. Ajoelhavam e gritavam por Jesus, Maria, José.

Chico Nico apareceu e custou a entender o que viu; era uma bagunça. Levou a mulher para a cama, deixou-a aos cuidados dos outros filhos e foi procurar Rita. Ela estava com as pernas escancaradas e o vestido na cabeça. Irritado, desceu-lhe as vestes e levantou a mão para lhe dar um tabefe. Força invisível jogou-o contra a parede, deixando-o estonteado. Ela se escondeu debaixo da cama, emitindo sons que pareciam rosnados de um cão.

Puseram-se de joelhos e principiaram a rezar:

— Ave-Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois Vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. / Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém. //

— Padre-nosso que estais no Céu. Santificado seja o vosso nome. Venha a nós o vosso reino. Seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu. O pão nosso...

Uma saraivada de pedras atravessou a parede caindo na cama e no piso. Tiveram que interromper as orações.

Os sucessos da fazenda Jurema se espalharam por léguas. A parentada se reuniu para fazer novenas, orações e benzeduras. Nada resolvia o caso. Chico Nico, com os nervos à flor da pele, se desesperava. A produção caía, os serviços estavam paralisados, gastava as economias alimentando parentes, afins e amigos. A casa parecia uma pensão.

Um preto-velho, mandingueiro, soube do caso e, como se considerava muito poderoso resolveu oferecer os préstimos à família, na esperança de derrotar o torto e se encher de glória. Ele era famoso, tinha olho-gordo. Ao passar perto de uma colônia de vespas, foi por elas envolvido; não se aborreceu. Pegou a caixa de marimbondos com a mão direita e com a esquerda ordenou: — "Vai embora, bichinho! Vai!" — Eles partiram em nuvem densa, sem molestar o feiticeiro.

Outras provas o negro deu de que era digno de respeito. Passou por barbatões de uma boiada recémchegada do sertão e não foi molestado por eles. Sequer foi detectado pelos boiadeiros. Ultrapassou um carro de bois, carregado de milho, rechinando triste e continuamente pelo atrito entre o eixo do rodeiro e os chumaços presos contra os cocões, rodando dolente, aos eias do carreiro e do candeeiro. Tampouco foi visto, parecia ser invisível. O mais sensacional feito se deu na chegada: o rezador, ao se aproximar do cercado, viu uma jararacuçu enrolada ao pé do esteio da porteira. Firmou o olhar no réptil que em segundos agitou-se, desenrolou-se e tentou, em vão, fugir. Força hipnótica a reteve. Coleava, enrolava, e não saía do lugar. Em minutos, foi reduzindo os movimentos até que cessaram completamente. O curimbeiro pegou a cobra com uma forquilha e a dependurou na cerca. Estava morta. Quando entrou no estábulo, além das vacas e outros animais estava a matilha de cães ferozes. Eles tiveram dois tipos de reação: uns puseram os rabos entre as pernas e fugiram ganindo para o mato; outros vieram lamber, alegremente, os pés descalços do viajante. Tudo testemunhado pelos moradores, maravilhados com aqueles feitos extraordinários.

Em casa, depois das apresentações, o homem se ofereceu para pôr uma mesa, modo como denominava o trabalho, para tirar o encosto. A família, em desespero, concordou com a benzeção.

Imaculadamente limpo, todo de branco, ele entrou no quarto, com uma trouxa e começou. Abriu uma velha e ensebada Bíblia, pendurou um quadro de São Jorge, encheu um copo d'água, distribuiu sobre a superfície uma chave de aço virgem, estrela-do-mar, cavalo-marinho, oratório com a imagem de São Miguel, cachimbo, fumo de rolo, incenso, cuia e uma garrafa de cachaça. Desenhou, no chão, um pentáculo e, em cada ponta, acendeu uma vela de cor diferente. Espalhou, cuidadosamente, pólvora em círculo, envolvendo o pentagrama. Queimou, levantando densa cortina de fumaça.

Encheu o cachimbo com fumo desfiado, acendeu-o, tirou algumas baforadas e soprou em direção aos quatro-cantos, recitando ensalmos e, a seguir, iniciou um monótono e ineficaz conjuro:

Eu, como criatura de Deus, feita a Sua semelhança e remida com seu santíssimo sangue, vos ponho preceito, Demônio, para que cessem os vossos delírios, para que esta menina não seja jamais por vós atormentada com vossas fúrias infernais. Pois o nome do Senhor é forte e poderoso, por quem vos cito e notifico que vos ausenteis deste lugar.

Fazia reverências diante do gongá. Em seguida, curvou o corpo para o lado direito, num semi-arco e começou a bater, ritmado o pé direito, acompanhando de palmas. Depois mudou de posição para o lado esquerdo, repetindo toques e aplausos.

O ambiente começou a mudar: sombras, ruídos e distorções nos móveis. O frio aumentou sensivelmente. Mestre Joaquim, sem parar, encheu o coité de aguardente e tomou-a de um só gole.

Subitamente, um sopro gelado apagou todas as velas, o quarto ficou numa penumbra em face do excesso de fumaça. Em um canto brilhou luz fosforescente. Imediatamente, o macumbeiro retirou da trouxa algo parecido com uma tíbia de defunto, levantou-a sobre a cabeça e foi sacudido por convulsões, contrações e tremores. Começou a girar numa velocidade crescente; rodopiando... rodopiando, até perder o equilíbrio e estatelar no chão, com estrondo. Tentou levantar, não conseguiu. Algo o obrigava a se manter de quatro: um ser disforme que se confundia com as sombras. O macumbeiro insistiu mais três vezes em se pôr de pé. Começou, então, a retroceder ou a ser empurrado de costas em direção à porta. Quando transpôs o umbral, a mesa, a trouxa, os santos, a parafernália e ele foram jogados, com violência, para a sala contígua. Líquidos, cacos e detritos esparramaram-se por todos os lados.

O aterrado pai-de-santo só conseguiu se erguer auxiliado por outras pessoas. Meio grogue articulou:

— Não estou bem, preciso repousar. Tentarei, outra vez, à meia-noite.

Puseram-no na cama, onde ficou arriado, sem se mexer e sem forças para piscar, talvez até em coma.

Pouco antes da hora aprazada, foram buscá-lo. Apesar de todos os apelos e arrancos, não conseguiram acordá-lo. Deixaram-no trancado, para que ninguém o molestasse.

Naquela noite, um nevoeiro espesso cobriu a região. Desapareceu a fazenda, árvores, animais, plantações. Não se via um palmo diante do nariz.

Bem de madrugada, pai Joaquim saiu da letargia. Custou a se reorientar. Tudo estava tão confuso. A cerração pesada, branco-leitosa, quase palpável. Estirou a mão no sentido horizontal, detectou pelos e calor; forçando a vista, descobriu que estava deitado no estábulo, entre os bezerros.

— Como vim parar aqui? — se interrogou. Recordou-se da aventura, ou melhor, da desventura. Deu um pulo. Estava de pé. Sacudiu o esterco de boi, benzeu-se. Com extrema cautela passou entre as reses. Pulou a cerca, achou a estrada... correu, disparou... e nunca mais foi visto.

Assim terminou a empresa daquele feiticeiro que ousou enfrentar o tinhoso e se deu mal.

 

CRIME E CASTIGO

 

Do inescrupuloso vigário (Afonso) começara com o caso, carta. O garoto, que se esgueirara entre ele e o batente, vira, atônito, o entrevero do padre com o diabo, com a derrota preliminar daquele que, ao ouvir as invectivas, se fizera rubro de vergonha. Logo se recompôs, fez o sinal-da-cruz, como uma bênção em direção à menina e pronunciou as palavras-chave:

Vade retro, Satana!

O tal não se dignou a obedecer. Emitiu gases, deu uma gaitada. Fez a menina virar de costas, levantar o vestido e mostrar o traseiro.

— Tragam meus paramentos — solicitou o padre, traquinas.

Buscaram a caixa de folhas-de-flandres, na sala. Abriu-a e pegou, rápido, a galheta com água benta e aspergiu a garota.

— Está me machucando, pare de jogar esta água suja.

Rita, ou melhor, a coisa que a incorporava, se encolheu no canto e tapou o rosto com as mãos. Ao mesmo tempo, a tranqueira abriu com barulho. Vacas leiteiras e crias, que tinham sido apartadas, se misturaram. Correria para separá-las. Ninguém abrira a porteira. Todos sabiam que era arte do tição.

O prelado aproveitou a confusão e se retirou do quarto. Após conferenciar com Chico Nico, informou que jejuaria por alguns dias, para ganhar forças antes de terçar armas com o maldito. Solicitou e obteve um local amplo, totalmente isolado e nele se instalou, com recomendação expressa para não o incomodarem. Queria ficar isolado no período de abstinência. Pediu para o menino Antônio atendê-lo quando chamasse. Foi obedecido.

Nos três primeiros dias, cumpriu à risca todos os preceitos. Levantava as cinco, oficiava a missa, no que o garoto diligenciava para ajudá-lo. Ele não entendia o ritual da Santa Missa, principalmente aquelas palavras em latim; entretanto ajudava compenetrado e com boa vontade. Passava o missal da direita para a esquerda e vice-versa, punha vinho no cálice, fazia e desfazia o altar, arranjava e guardava as vestes litúrgicas.

Dominus vobiscum — orava o oficiante.

Et cum spiritu tuo — respondia o garoto, como papagaio.

No quarto dia, o reverendo não aguentou a fome e pediu a Toninho para trazer, à sorrelfa, alguns pedaços de carne, acompanhados de um pouquinho de arroz e salada. Daí em diante, o jejum foi uma palhaçada. Empanturrava-se todos os dias às escondidas. No duro, estava com medo de enfrentar o sarnento. Dava tratos à bola para achar uma saída honrosa, sem desagradar a família.

O padre pilantra tinha segundas intenções em relação ao afilhado. Desde a viagem vinha alimentando pensamentos escusos. Começou por conquistar-lhe a confiança. Falava sobre o desejo dos jovens, procurava dar sentido dúbio às palavras, utilizava sofismas, evidenciava que as atrações sexuais atendiam a sentimentos naturais, mesmo entre pessoas do mesmo sexo. Procurava valorizar a convivência harmoniosa entre homens. Passava, distraidamente, a mão no rapazinho. Quando julgou que ele estava doutrinado, pretextou estar com dores e pediu que o massageasse. Teve uma ereção, tentou agarrá-lo. O garoto se desvencilhou, correu para o quarto e trancou a porta com a taramela. Estava desconcertado, furioso, colérico. As pessoas em que confiava eram tão desprezíveis. Primeiro o tio, agora o padrinho. Procurou, inutilmente, entender os motivos; de ingênuo nada tinha, conhecia alguns segredos, por isso se revoltou com as artes do vigário. Embora precoce, não maliciava tudo e nem conhecia a extensão da maldade humana. Sentimentos conflitantes fervilhavam no cérebro. Raiva, perdão, ódio. O que fazer? Denunciar, calar, ignorar ou silenciar?

“Deus do céu! Cometera algum pecado?”

O sacerdote, no dia seguinte, deu por encerrado o jejum falso e se dispôs a enfrentar o rabudo para acabar logo a tarefa. Muniu-se de um crucifixo, hóstia consagrada, água benta e entrou no quarto da endemoninhada. Foi recebido por uma catapulta de injúrias, excrementos, pedras e outros objetos.

— Miserável, desavergonhado, serás meu ajudante no inferno! Sujo, patife, imundo! Tu não prestas! Como tens coragem de ser padre? És meu companheiro! Fora!...

Não pôde reagir. Afastou-se balbuciando palavras incoerentes, algo como o pai-da-mentira. Pediu um cavalo arreado e partiu como um raio. Mais um derrotado.

Não voltou ao presbitério nem a lugar algum... Muito tempo depois fora visto errante pelas estradas, montes e várzeas, em diálogo permanente com as sombras. Babava como um cão danado; a saliva escorria pêlos cantos da boca, empapava a camisa que ficava suja e pegajosa, com um aspecto repugnante. Um dia foi apanhado furtando linguiças dependuradas no varal sobre o fogão de lenha em uma casa. Internaram-no em hospício, onde teve que se haver com os demais doentes mentais. À noite tinha sonhos, pesadelos e visões. No paroxismo da loucura, apontava para os cantos gritando: — É ele, é ele, que veio me buscar! — Ficou agressivo, louco furioso; atacava todos com dentadas e resistia violentamente aos enfermeiros. Vestiram-lhe uma camisa-de-força e o jogaram no isolamento, onde urrava, gemia e investia contra as paredes. Aplicavam-lhe, rotineiramente, doses maciças de sedativos e eletrochoques. Quando as lamentações e os gritos se tornavam insuportáveis, um brutamonte entrava na cela e lhe dava uma sessão de pancadas.

Sem comida, sem tratamento adequado, sozinho, abandonado por todos foi definhando cada vez mais. No final da vida, teve um lampejo de razão e pediu um confessor, para lhe dar o perdão dos pecados. Isto também lhe foi negado, porque um louco não tem o que dizer e assim, ele morreu chafurdado nas próprias imundícies, após longa agonia e sofrimentos atrozes.

Eis o fim do clérigo abominável e corrompido, que semeou ventos e colheu tempestade.

 

DIABRURAS

 

Na fazenda Jurema só aumentavam porque o torto estava cada vez mais furioso. Depois do episódio do padre desregrado e degradado, o demo fazia os maiores esforços para enlouquecer a família. Levitava Rita que, de frente para a parede, subia para o teto, mansamente. Nesta hora, a voz fraquinha do anjo da guarda pedia:

“Tragam o menino para me ajudar.” Toninho era iluminado, era puro, segurava a mãozinha dela, enquanto rezava:

Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, a ti me confiou a piedade divina. Sempre me rege e guarda, governa e ilumina. Amém.

Ela descia vagarosamente e desfalecia na cama. Por um dia ou noite não dava sinal de vida.

Toninho começou a se tornar imprescindível junto à Ritinha. Por ela tomou grande afeição e sofria por vê-la passar por tamanha provação pelas forças do mal. Ele não entendia como aquilo podia acontecer com ela; tão boazinha. Onde estavam os poderes de tantas orações, antífonas, salmos e apelos aos santos protetores?

Chico Nico não mais entrava no quarto da filha. Tinha receio das verdades e dos palavrões, como também das agressões da entidade que habitava aquele corpo.

Acontecia de a coisa se desincorporar para aprontar umas e outras. Soltava os porcos que se espalhavam pela várzea, dando o maior trabalho para juntá-los; punha o moinho a moer pedra; espantava as vacas na hora da ordenha; misturava fezes de animais na comida; promovia aportes que atravessavam telhados e paredes sem quebrar telhas ou fazer buracos; às vezes chorava a noite inteira. Era uma calamidade. Quando reincorporava em Ritinha, fazia caretas, gestos obscenos, subia pelas paredes, vomitava matérias fétidas. Atirava o que tinha na mão, nos outros. Só o rapazinho tinha o dom de acalmá-la.

As pessoas que ousavam entrar no quarto eram vítimas de brincadeiras infames e ouviam verdades indiscretas. O tal se deliciava em desvendar segredos íntimos. Amantes foram desmascarados, beatas vilipendiadas, enfim tudo acontecia e se podia esperar do príncipe infernal.

A avó da menina um dia resolveu visitá-la. Católica praticante talvez pudesse ser de alguma valia. Antes que ela saísse de casa o capeta pressentiu e ameaçou:

“Lá vem a velha coroca, da fazenda Cachoeira, com aquela corda de tento e de sabugo de milho” referindo-se ao rosário. “Não adianta, aquelas continhas não me tiram.”

Dona Umbelina, a avó, chegou, rezou, cantou hinos, jaculatórias e responsórios. Sofreu o tempo todo com as zombarias do diabo. Perdeu a paciência com uma gozação mais forte e bateu com o rosário na possessa.

“Pare de me bater, velha caduca. Ai... ai... aiiiiiiii!” Arrebentou o biurá, e as lágrimas-de-nossa-senhora se espalharam pela cama e por todos os lados.

Os assistentes, de cabelo em pé, escafederam-se.

A situação estava por demais fora de controle, trágica. Impossível continuar a pantomina. Muitos adoeciam.

Chico Nico tomou uma resolução: chamar o padre santo que morava na casa paroquial, anexa à igreja matriz de uma grande cidade. Um exorcista de fama e grande poder. Chamava Simeão Hauck. Ele recebeu o fazendeiro com carinho e pediu que relatasse o que se passava.

Sem muitos rodeios, contou-lhe toda a história, inclusive a demanda com o frade. Foi uma catarse, uma confissão, um grito de socorro.

Simeão deu os seguintes conselhos: o homem deveria observar rigoroso jejum, distribuir esmolas, pacificar inimigos e adversários; parar os xingamentos, cessar as perseguições, adotar um sistema de vida piedoso e desculpar-se com o padre injuriado, de joelhos, se ele assim o exigisse. Prometeu examinar o pedido e, se necessário, iria até à fazenda. Por enquanto, faria orações à distância.

O fazendeiro arrependido cumpriu os mandamentos: mudou dramaticamente o comportamento. Confessou e comungou, o que não fazia há muitos anos; perdoou alguns inadimplentes; renegociou hipotecas de outros, promoveu a paz com o frei Gálio, humilhando-se publicamente e pedindo perdão pelas ameaças; jurou nunca mais se exceder em bebidas; deixou substancial ajuda, em dinheiro, para os pobres da freguesia. Doravante se dispôs a ser um homem caridoso e de bons costumes. Também pudera, com anos tendo o diabo como inquilino!

Teria Deus tocado aquele coração de pedra? Seja, mas a inexorável, a inescapável lei de causa e efeito, a justiça infalível seria feita. A misericórdia divina é infinita. Ela daria ao espírito daquele homem tantas ocasiões quantas fossem necessárias para se remir os pecados.

Na fazenda, continuava a confusão como dantes. O capa-preta aprontava poucas e boas como se estivesse revoltado com a súbita religiosidade do fazendeiro. O inferno o esperava. Não aceitaria, sem luta, a perda da presa.

Ritinha não se levantava, exceto quando possuída, tomada pela entidade. Então assumia a força de dez homens.

Ninguém podia detê-la. Relinchava e latia, tal como os animais. Quebrava imagens sagradas e como sempre levitava. Aí chamavam o menino. Ele entoava a oração de sempre e a repunha na cama.

Toninho, sem o saber, amava Rita. Este amor foi bom para ele, que jogou para o subconsciente os traumas dos abusos do padre e de um tio. Gostava de ficar no quarto dela tanto quanto lhe permitiam para ajudá-la nos transes difíceis.

Ao soar da meia-noite, o trevoso se apossou dela e iniciou uma cantilena com voz soturna e plena de deboche:

“Garoto, há muito tempo venho lhe seguindo os passos. Assisti o seu nascimento, na verdade, acompanhei-o na barriga da mãe. Fiz o possível para complicar a gravidez, pretendia matá-lo. Não consegui, havia disposições superiores mais fortes do que a minha vontade. Tive que ceder, porém designei um auxiliar para espioná-lo sem cessar. Verrine tem correspondido e me mantém a par de tudo. Dificulta sua vida, mata as esperanças, procura lhe dar "bons" momentos de tristeza, enfim nós o prejudicamos sempre e temos planos mais detestáveis. Seria melhor negociarmos. Quer ser dos meus? Está confuso? Curioso? Quer meu nome? Por ora, saiba que sou aquele que manda: o chefe. Duvida do meu poder? Respondo com uma descrição. Eu moro pertinho da fazenda da Legalidade. Do outro lado está a fazenda Cachoeira, da avó desta menina. A velha beata vive rezando. Não adianta, sou insensível às orações; por via das dúvidas, não me envolvo com ela. Não tenho medo nem do papa, alguns deles são meus hóspedes. Entre as fazendas passa a estradinha, quase uma trilha. Paralelo, segue um riacho que, na divisa, faz uma curva e transforma-se numa corredeira. Um pouco antes, há uma ponte. Tiveram a boa idéia de cobri-la para proteger barrotes e pranchões do sol e da chuva. Muito bom... é na ponte coberta que estou quando não aqui. Eu me divirto assustando viajantes, cavaleiros, tropeiros e provocando estouros de boiada. O que acontece de ruim lá é minha obra. Vamos, agora ao importante: você tem me atrapalhado muito. Vamos negociar?”

— Como? Sou apenas um menino. Pelo que ouvi, me persegue desde que nasci. O que quer aqui?

— Você sabe o que o pai dela disse quando soube da gravidez? Ficou muito zangado e falou sem rodeios: "A minha parte, eu a dou para o capeta".

— Ah, meu Deus! — exclamou o menino horrorizado.

— Tenho meus direitos, vim reivindicá-los.

— É mentira! — contestou, veementemente, Toninho.

— Que seja! não tenho compromisso com a verdade. Acho bom você ir embora.

— Vá você ou pare de tentar os outros.

— Vamos entrar num acordo, não conto seus segredos.

— Seja quem for não faço tratos. Deixe-a em paz.

— Parece uma velha teimosa. Sei dos seus pecados com o tio e com o padrinho, de batina.

— Abusaram de mim. Não tenho culpa.

— Olha aqui, ela me pertence, o pai já é meu.

— Ela é de Deus como um anjo puro.

— Fedelho, se eu quiser faço você voar pela janela.

O garoto apelou para a fórmula: Vade retro...

Uma grande explosão sacudiu todos os móveis, a fazenda tremeu nos alicerces. Um cheiro nauseabundo se fez sentir. Aporta se abriu com violência, um bicho preto, vindo não se sabe de onde, pulou na sala, a seguir na janela e mergulhou na escuridão.

Donde se explica que as fórmulas cabalísticas não valem por si mesmas; dependem da pureza do coração de quem as pronuncia. E Toninho era puro, apesar de tudo...

O garoto saiu gritando. Algumas pessoas acudiram. Ele contou tudo e alertou que o acontecimento se dera logo após as doze badaladas da meia-noite. Ficaram olhando para ele um tempão, por fim, disse dona Umbelina:

— Estranho, não ouvimos nada. O velho relógio há muito não marca horas, sequer tem corda.

Nos momentos de lucidez, Ritinha conversava com Toninho e lhe perguntava como se portava quando estava fora de si. Ele contava amenizando, suavizando, minimizando aquelas partes mais chocantes, grosseiras e imundas. Por exemplo, não citava que ela levantava a saia na presença de pessoas, que ria e debochava das imagens dos santos e que as esfregava no corpo simulando intenso prazer, que vomitava matérias fétidas e repugnantes e outros pormenores indecorosos.

Entre aqueles jovens se desenvolvia uma grande simpatia. Ela, muito frágil, dependente e muito carinhosa; ele, por sua vez, só faltava adivinhar os pensamentos dela.

— Quando eu sarar— dizia— vamos passear pelos campos, assistir às festas nos povoados; papai, certamente dará um baile e dançaremos muito.

Ele suspirava e sonhava com este porvir, embora não acreditasse convictamente que ela se curaria algum dia. Estava tão doentinha que ele temia o pior.

Tarde da noite, todos haviam se retirado para os respectivos quartos, somente os dois estavam acordados, conversando trivialidades. Ele aproveitou para ler uma poesia que havia descoberto entre as folhas do livro de tombo:

 

"Pergunta pras estrelas

se de noite me vêem chorar.

Pergunta se não procuro

a solidão pra te amar.”

 

“Pergunta pro manso rio

se o pranto meu não vê correr.

Pergunta pra todo mundo

se não é fundo meu padecer."

 

Um tropel de cavaleiros se fez ouvir e interrompeu aquele momento de ternura.

— Será que é o papai que está chegando?

Não era. Os viajantes pareciam muitos. Desceram dos cavalos que relinchavam e pisoteavam a lama: plac, plac, plac. Os cavaleiros subiram a escadaria de pedra batendo as esporas contra elas, conversavam e insultavam uns e outros, sem cerimônia. Acessaram a ante-sala. O alarido dos cães e o ruído dos recém-vindos zoavam pela casa. Atravessaram vários cômodos e foram parar na cozinha. Utilizaram panelas, frigideiras, pratos e talheres. Fritaram e cozinharam alimentos, falando em voz alta. Depois de saciados, quebraram pratos, atiraram facas e garfos na cristaleira, derrubaram mesas, cadeiras e foram embora. No dia seguinte, não havia sinal dos visitantes. Nenhum prato quebrado, nenhuma faca, garfo ou colher fora do lugar, nem mesa, nem bancos removidos, nem vidros quebrados, nem restos de comida. Ninguém, exceto os dois, observara algo insólito. Toninho, preocupado, achava que também estava ficando doido.

 

O novo Chico Nico, recémconvertido, depois de confabular com a mulher, convocou todos os parentes e visitantes para rezarem uma novena, pedindo a proteção de Nossa Senhora. Aqueles que lá estavam, só por curiosidade ou para a farra, foram gentilmente convidados a partir, ficando apenas os realmente interessados na solução do problema.

O pai reentrou no quarto da filha. Ela estava quieta, aparentemente normal. Só os olhos opacos denunciavam a presença do impuro.

O terço do santo rosário em louvor do divino Jesus foi a primeira tentativa séria para expulsar o mal. Chico Nico puxou:

— Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos.

A garotinha repetiu com trejeitos irônicos e, fazendo os gestos ao contrário, ou seja, de baixo para cima e da direita para a esquerda.

Ninguém se atemorizou. Continuaram:

— Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

A coisa escarneceu:

— Buuu!... merda. Ra, rá, rá.

— No primeiro mistério, contemplamos como a virgem Maria foi saudada pelo anjo e lhe foi anunciado que havia de conceber e dar à luz a Cristo, nosso Redentor.

— Padre-nosso que estais nos céus. Santificado seja o vosso nome. Venha a nós o vosso reino. Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. E perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. E não nos deixeis cair em tentação. Mas livrai-nos do mal. Amém.

O ser diabólico repetiu tudo ao contrário, com intenção de causar a maior confusão, o que conseguiu, mas sem esmorecer a fé religiosa do pessoal.

Os crentes continuaram:

— Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Assim como era no princípio, agora e sempre, por todos os séculos dos séculos. Amém.

Após o padre-nosso e a glória ao pai, rezaram por dez vezes a ave-maria, correspondendo às meditações dos cinco mistérios, suportando, imperturbáveis, as gozações.

Às vezes oravam em latim: Gloria Pater et Filio et Spiritni Sancto.

— Eu sei latim: — Per omnia saecula saeculorum. Debochava o demo.

A coisa ironizava, contorcia-se na cama e vociferava:

— Cambada de patifes, prostitutas. Saiam do quarto. Deflorador e explorador de mulheres, esse Chico Nico vagabundo, filho de escravo, assassino. Miseráveis, piedosos de fachada à noite vão gozar nos braços das amantes. Todos têm encontro marcado comigo.

E o pessoal firme:

— Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida doçura esperança nossa salve; a vós bradamos os degredados filhos de Eva; a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia, pois, advogada nossa, esses olhos misericordiosos a nós volvei; e, depois deste desterro, mostrai-nos Jesus, ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre virgem Maria. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

— São Miguel Arcanjo, protegei-nos no combate. Cobri-nos com vosso escudo contra os embustes e ciladas do Demônio. Subjugai-o, Deus. Instantemente Vos pedimos, e vós, Príncipe da milícia celeste, pelo divino poder, precipitai no Inferno Satanás ou outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém.

A possessa começou a jogar imagens, velas, ícones, travesseiros, roupas, o que estava próximo sobre o grupo. Contudo, eles continuavam impávidos. Então ela começou a levitar lentamente. Primeiro, ficou inteiramente retesada na posição horizontal sobre a cama. Depois, em contínua inclinação em relação ao piso e à parede, até ficar totalmente na vertical. Sem apoiar em nada, subiu em direção ao forro.

— O menino! o menino! — A voz fraquinha do anjo da guarda, clamava perto da garotinha.

Toninho correu. Segurou-lhe a mãozinha pálida e fria. Devagar, puxou-a para baixo. O corpo obedeceu, pouco depois repousava exangue no leito.

O orador recitou a oração de encerramento, após o quinto mistério:

— Ó meu Jesus perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o céu e socorrei, principalmente, aquelas que mais precisarem.

Findo o terço, observaram que ela parecia mais calma. Animados, resolveram cantar o Credo.

— Creio em Deus Padre, todo-poderoso. / Criador do Céu e da Terra. / E em Jesus Cristo um só seu Filho / Nosso Senhor, o qual foi concebido / Do Espírito Santo, nasceu de Maria Virgem, / Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, / Morto e sepultado, desceu aos infernos. / Ao terceiro dia ressurgiu dos mortos. / Subiu ao Céu (bis). / Está sentado à mão direita de Deus Padre, / todo-poderoso; / Donde há de vir julgar os vivos e os mortos. / Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, / Na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, / Na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém.

A garota deu um berro horroroso e pôs todos a correr, exceto Toninho, que pernoitou no local. Felizmente, o demo não aprontou mais traquinagens naquela noite e puderam dormir bem.

Dia após dia, continuaram a rezar. Lúcifer não dava tréguas. Mal começavam o terço, principiavam as confusões, os desafios, os palavrões.

As reações dela, cada vez mais fracas, entristeciam a todos. Possivelmente Satanás também enfraquecia ou, quem sabe, quisesse demonstrar que não largaria facilmente a presa. A grande batalha estava para iniciar, o padre santo viria.

 

 

Aguarde em breve, continuação...

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