POSSESSÃO
Eis a messe do fazendeiro. Como teria começado aquele
drama? Ninguém sabia explicar corretamente. Aqueles que tinham boa memória
recordavam que, no mês de maio, costumavam rezar o Santo Rosário, em
homenagem a Nossa Senhora. Em cada casa ela ficava nove dias, era a novena.
Levada de uma para outra em procissão solene, à noite, quando entoavam hinos
religiosos durante o trajeto. Vestiam, neste dia, as crianças, de anjinhos
para maior brilho da festa. Chegou a vez do acontecimento se dar na fazenda
Jurema. Foi aí que os problemas da menininha se tornaram evidentes.
Nossa Senhora, a virgem santa, vinha de longe, em
procissão, com muita gente, pois Chico Nico era importante Todos lhe puxavam
o saco. E vinham segurando velas acesas, com as duas mãos à altura do peito,
em sinal de contrição e cantavam:
“Avê... Avê... Avê, Maria!... Avê...
Avê... Avê Maria!"
As velas tremeluzindo à brisa suave de uma noite
estrelada, a imagem balançando levemente, no andor, nos ombros dos irmãos
marianos, o serpentear na planície, causavam arrepios de emoção nuns e de
medo noutros, dependendo do estado de espírito.
O pessoal aglomerado, no alpendre da fazenda, esperava.
Os sons ficavam cada vez mais nítidos:
“A treze de maio na Cova da Iria,
Dos céus aparece a Virgem Maria...”
Ritinha, sexta filha do casal Chico Nico e Almira, então
com onze aninhos, franzina, aparentava ser mais nova. Lourinha, cabelos
ondulados, dentes perfeitos, rosto angelical, tinha um ar de princesinha.
Quando no jardim, parecia uma fada, uma flor entre as flores. Os raios do
sol ricocheteavam nos seus cabelos formando cascatas de ouro. Extremamente
sensível, apanhava no ar os desejos da mãe e dos irmãos. Os olhos muito
azuis brilhavam de prazer com essas premonições. Ela prometia ser uma bela
mulher. Sonhava de olhos abertos, conforme os anseios da idade. Tinha
sensações indefinidas, esperando que o mundo lhe fosse trazer grandes
surpresas. Gostava de ficar sozinha com pensamentos e olhos perdidos no
mundo interior. Tinha verdadeiro pavor do pai e nenhum diálogo com a mãe,
que só sabia dar ordens:
“Varra a casa! Olha teu irmão! Vai deitar!...”
Obedeça, obedeça, obedeça... sim, sim, sim...
Como não era ouvida, nem chamada para conversar, criou
um universo particular e nele se enclausurou e se dava muito bem. Neste
mundo imaginário tinha como amiguinhos duendes, gnomos, elfos, salamandras e
outros personagens míticos com os quais dialogava, expunha problemas,
dúvidas, alegrias, tristezas, amores e sonhos.
Quando chamada pelo pai, tremia de medo, pois quase
sempre ouvia sermões, zangas ou tomava safanões.
E a procissão chegou ao cercado. Ritinha, sem razão
clara, começou a tremer incontrolavelmente. Olhos esgazeados, fixos no povo,
nas velas e nas chamas dançantes, que de acordo com o vento, agora mais
forte, algumas até apagavam. À medida que caminhava mais inquieta ela
ficava. Escondeu o rosto nas pregas da saia da mãe; com os dedos crispados
segurava no tecido e dava arrancos. Força incontrolável arrastava-a para
dentro. Tomou um beliscão, dois, com ordem para ficar quieta. Não obedeceu.
“Menina fique quieta!”
O pessoal, as velas, a santa, estavam ao pé da escada e
Rita chorando.
“Mãe! Manda eles embora!” Chico Nico, homem de pavio
curto, deu uns cascudos na filha para ela se calar, mas não adiantou.
O cortejo subia a escada de pedra, cantando:
“No céu, no céu, com minha 'starei.”
Cada vez mais desesperada com o pessoal que pisava o
último degrau, Rita não suportou. Disparou para dentro e foi se esconder no
quarto onde se cobriu com uma colcha.
“Tire ela daqui! Tirem! Não gosto dela, está invadindo
minha casa!” repetia, sem cessar. Chorava e gritava e gemia, e todos
escutavam aquilo, sem entender nada.
A mãe resolveu perguntar o que se passava. Estaria a
filha ruim da cabeça? Entre soluços, limitava-se a pedir que levassem aquela
figura de barro, referindo-se à santa.
Por fim, dona Almira, que não entendera patavina daquele
comportamento, desistiu de levá-la à sala onde estava o altar. Cerrou a
porta, trancou o quarto por fora, voltou ao grupo desculpando-se pela filha
que, com certeza, estava com histeria.
E os fiéis continuaram a cantar:
“Com minha mãe 'starei, / na santa glória um dia...”
“Ao lado de Maria / No céu triunfarei.”
Enquanto durou a reza, a garota permaneceu no quarto, de
vez em quando, jogava um traste na porta, assustando os rezadores. Terminada
a oração, a mãe fez outra tentativa, arrancou-a do refúgio e a levou à sala
para beijar a fímbria da capa da santa. Foi um desastre. Ela se contorcia,
se debatia e se jogava ao chão, gritando que não queria beijar barro.
Praticamente arrastada, aproximou-se do altar. A mãe segurou-a pelos cabelos
e levou a fita aos lábios dela. Ela agarrou a tira que passava pela cabeça
da imagem e puxou violentamente. A santa foi arrancada do nicho e atirada ao
chão, quebrando em mil pedaços. Como por milagre, Rita parou de se debater;
ficou quietinha, olhando os cacos. Parecia que a razão de ser daquela
agitação desaparecera, a santa não existia mais. Cessada a causa, cessava o
efeito.
Os fiéis presenciaram a cena, estupefatos com a
violência do ato e com a mudança de comportamento. Começaram a murmurar que
ali estava o diabo. Cataram os cacos para tentar uma reconstituição e
trataram de dar o fora daquela casa, arranjando mil desculpas.
E os antecedentes...? Acontecera o seguinte: Ritinha era
uma criança normal como todas. Então o pai aprontou uma confusão que a
afetou profundamente. Meiga como uma rosa, detestava brigas, confusões e
discussões, mas o pai gostava. Um dia ele a levou ao arraial para assistir à
missa. O pai, após algumas libações, ficou alto e por motivos políticos,
arranjou uma arenga com o frei Gálio. A zanga entre os dois foi crescendo
até que, saindo da afronta verbal, partiram para a agressão física. Chico
Nico, mais forte, deu uns tapas e tombos no inimigo. A turma do deixa-disso
interveio e não permitiu que a briga demorasse, separando os contendores. A
guerra de palavras e ameaças continuou. O cura jurou que o fazendeiro iria
se arrepender e que ainda lhe pediria perdão de joelhos. Invocou o poder de
todos os santos e o dele de excomungar. Embora bom, puro de coração e probo,
o padre tinha um defeito: irritava-se com facilidade. Chico Nico lhe
prometeu uma sova de tala. Essas ameaças foram ouvidas por todos.
Voltaram a casa. A garota em total mutismo. Ligeiros
tremores lhe percorriam o corpo. O velho fazendeiro contou à mulher a
desavença, aumentando as invectivas e prometendo aplicar um corretivo
inesquecível no vigário, que ficaria sem a pele das costas. Citou os nomes
de Pedro Sertanejo e de Pedro Pião (este quando bêbedo, rodava como tal),
dois valentões, que fariam o serviço, pois não queria se envolver
diretamente.
Rita ouviu tudo, com os olhos arregalados de susto.
Retirou-se para o quarto, chorando copiosamente. O pai estava errado, não
era justo maltratar o pároco. Sem saber o que fazer para evitar a contenda,
resolveu procurar os peões citados para lhes pedir que não batessem no bom
padre.
Os capangas eram broncos, analfabetos e maus. Executavam
tarefas sujas ordenadas pelo patrão; não hesitavam em matar se fosse
preciso. Moravam no mesmo casebre, por serem solteiros.
Chegando à casa de taipa, entrou sem avisar, pois a
porta estava só encostada. O que viu a encheu de vergonha: os xarás,
bandidos estavam praticando sodomia. Ela, recuperando os movimentos, girou
sobre si mesma e retornou em disparada, enquanto ouvia as gargalhadas dos
boçais.
O caso do padre e dos facínoras foi demais para ela, que
adoeceu e, por algum tempo, exigiu os cuidados dos pais. Por enquanto, Chico
Nico esqueceu a querela.
Quando Rita se recuperou, não foi mais a mesma. Cada vez
mais taciturna, raramente dirigia a palavra a alguém. Um dia, encontraram-na
debaixo da cama. Perguntaram por quê. Disse que estava vendo um negrinho.
Ele viera buscá-la.
Neste estado psicótico, tinha visões esporádicas, onde
predominava a figura do cravunco. Ora ele estava numa moita de bananeiras,
ora na copa de um coqueiro, ora trepado nas tábuas do retiro e, quase
sempre, dentro do quarto. Ela dormia mal e dizia palavrões por qualquer
motivo.
O tempo passou, o problema permaneceu. Então o pai
resolveu levá-la à igreja de Humaitá. O capelão de lá era amigo, com certeza
lhe daria uma orientação. Mandou selar três animais, um para ele, outro para
a mulher e outro para a filha, os últimos com silhões, mulher, por pudor,
cavalgava de lado.
À medida que se aproximavam do lugarejo, a menina ficava
cada vez mais inquieta e o cavalo que a levava, também. Quando avistaram o
campanário, seu Chico resolveu dar de beber aos cavalos em um regato que
ficava à esquerda do cruzeiro. Neste momento, um dos potros agitou, estacou,
empacou e não foi possível fazê-lo andar. Desistiram de dessedentá-los.
Chico Nico amarrou o cabresto do potro de Rita no seu
arreio e puxou. Dona Almira ia atrás chicoteando. Só assim puderam continuar
a jornada.
Em um lugar sombrio, a estrada era engolida por um
exuberante bosque de bambus, taquaras, taquaruçus e tabocas que, pelas
altíssimas hastes curvadas umas sobre as outras, formavam uma espécie de
túnel, um boqueirão escorregadio, úmido e frio. O local era denominado
carrascal em face da grande quantidade de cristais e malacachetas ali
encontradas. O pai soltou o cavalo para abrir a porteira. Uma vez aberta,
Rita passou e o animal disparou. Bufando, desceu a ladeira sem que ninguém
pudesse detê-lo, deixando os acompanhantes. Não se sabe como e ninguém
jamais soube explicar a ultrapassagem de tantas porteiras sem que a amazona
abrisse qualquer delas e sem que ela despencasse do animal desembestado.
Chegando, no adro da igreja, o ginete estacou. Ela se
jogou da montaria, que partiu como um raio por um beco e dela ninguém teve
notícia jamais.
Em pé, ela ficou olhando estática para a cruz no alto da
torre. Os pais apearam, amarraram os animais em uma árvore na pracinha, e
seguraram-lhe as mãos geladas.
“Vamos entrar na igreja” ordenou o pai.
Ela nem se mexeu. Recebeu um arranco. Nada. Parecia uma
pedra bem assentada no solo. O velho sentiu que não conseguiria desse modo;
colocou-a no colo. Ela estava tão pesada... Um peso formidável,
insuportável. Depositou-a no chão e, desanimado, olhou para os lados num
pedido mudo de socorro.
Dona Almira a tudo assistia abismada. O povo ia chegando
pelo insólito da cena; por fim, fizeram um círculo em torno dos três: pai,
mãe e filha, desamparados, patéticos e grotescos na praça.
A missa terminou. Os fiéis iam refluindo do interior da
ermida e aglomerando no átrio. Dali observaram aquele pequeno grupo.
Curiosos foram até eles, logo formaram uma multidão. O reverendo, nesse
momento, assomou à porta principal ainda paramentado. Indagou o que se
passava. Uma beata colocou-o a par da situação. Adivinhou que os viajores o
procuravam, para eles se encaminhou. Com cotoveladas, empurrões “com
licença”, ficou frente à frente com os três.
“O que tem ela?”
Cumprimentaram-se e o pai, em voz baixa, explicou
concisamente o caso. O eclesiástico determinou que ela fosse levada para o
interior da nave. Aí estava a dificuldade, não havia jeito de fazê-la
caminhar. Estava fixa no solo. Três homens avançaram para ajudar. Seguraram
nas pernas e nos braços, puseram-na em posição horizontal e levaram-na até à
entrada. Impossível ir adiante, ela pulava, debatia-se, agitava, esticava e
encolhia. Liberava um braço ou perna, chutava, caía no chão, serpenteava
entre as pessoas até ser agarrada de novo. Não falava, dentes cerrados e
lábios apertados deixavam escorrer uma espuma esverdeada. Os olhos vidrados.
O quadro espantava. Desistiram da tarefa e a colocaram na entrada do templo,
sobre um matacão, para deliberarem o que fazer. Alguns persignavam.
O povo assustado e temeroso segredava:
“É o demônio, nunca vimos nada igual.”
Rezavam em voz baixa o
Creio em Deus Padre.
O ministro do Altar ficou pensativo por minutos, depois
pediu que a levassem à casa paroquial, o que foi feito com muita facilidade;
não houve resistência. Arrumaram às pressas uma cama onde ela foi deitada.
Estava tão exausta que permaneceu inerte, como morta, esgotada pela luta
para não entrar na igreja.
Acalmada a situação, a multidão se dispersou, ficando
poucas pessoas para ajudar em qualquer eventualidade. Havia muita
expectativa.
Serviram café e outros alimentos, que os viajantes
comeram com satisfação, exceto a doente, que permanecia prostrada, alheia a
tudo o que se passava ao redor.
Descansados, pai e mãe foram minuciosamente interrogados
e relataram a história completa ao religioso, que tomou conhecimento das
blasfêmias de Chico Nico, da briga com o frei Gálio, da praga recebida, de
tudo.
Seguiu-se então longo silêncio. Todos meditavam sobre as
mazelas daquela família. O guia das almas aconselhou:
“Temo que ela esteja endemoninhada. Infelizmente, se for
o caso, não tenho autorização do senhor bispo para exorcizá-la. A igreja tem
prelados especialmente treinados para isto. Recomendo que procurem um.”
“Vim aqui no maior sacrifício, porque é meu amigo, agora
o senhor diz que nada pode fazer. Estou frustrado, decepcionado. Sou um
homem desesperado. Ajude-me!” exclamou o pai de Rita.
Arruda, este era o nome do capelão, não se tinha como
competente. Julgava-se medíocre, mais ainda, um pecador. Gostava muito dos
óbolos dos fiéis, reclamava do seu pão-durismo, dizendo que padre também
comia. Apascentava as ovelhas mecanicamente, de forma disciplinada e sem
inovações. Como paciente sacerdote do povoado, realizava um bom trabalho:
casamentos, batismos, confissões, extrema-unção, encomendas de mortos;
coordenava as festas anuais a favor do padroeiro, fiscalizava o fabriqueiro
para evitar deslizes financeiros; oficiava a missa aos domingos, dias santos
e por solicitação. Neste ofício e ocasiões alternavam nas homilias, os
surrados chavões contra os maçons, os ateus, os crentes e os espíritas, mas
sem ênfase, grande fé, nem entusiasmo, pois era um tanto relaxado com as
coisas da religião. Não esperava que os fiéis o levassem a sério.
“Posso tentar” disse o padre. “Para mim o caso é muito
grave, vou fazer um teste; se for possessão, saberei.”
Mandou o sacristão ir à igreja apanhar no cibório uma
hóstia consagrada. Logo que a teve em mãos, tentou introduzi-la na boca da
garota; não foi possível, ela cuspiu.
“Não como esta porcaria” disse com voz rouca. Padre
Arruda desistiu. Virando-se para o pai, aconselhou:
“Considerando que os sintomas são evidentes, não vou
fazer mais experiências com ela, pois poderá perder a vida e a alma imortal;
a solução, já dei: achem um exorcista.”
Embora contrariados, os pais tiveram que concordar;
pernoitaram na casa paroquial e, na aurora, partiram, para alívio do
clérigo.
A possessa melhorou consideravelmente quando iniciaram o
regresso. Até se podia pensar que ela estivera fingindo tal a transformação.
O rosto pálido agora estava rosado. Tagarelava com a mãe, ria das coisas
tolas, acompanhava com os olhos o vôo dos pássaros, parava o cavalo e descia
para colher uma rosa silvestre. O pai desconfiava do que via. Achava que
estava sendo ludibriado. Intimamente, julgava a filha leviana e mimada.
Talvez estivesse fazendo um papel para ser notada.
“Espero que Ritinha não esteja me enganando. Que será
que está me aprontando? Quem sabe se um bom corretivo? Veremos isto lá em
casa.”
Ao passarem perto da velha figueira calcinada Rita
emudeceu, algo enganchou na garupa do seu cavalo, que se achatou, como se
carregasse pesado fardo para suas forças. A coisa só pulou fora na entrada
da malhada. Era o moleque-preto.
Chovia torrencialmente, os
cavalos patinavam nas pedras e afundavam as patas entre elas. Os familiares
e colonos da fazenda Jurema/Buriti esperavam no alpendre os patrões que,
muito antes de aparecerem, foram anunciados pelos latidos dos cães. Noite
escura, os lampiões, lamparinas e velas davam um tom irreal à cena. A batida
das patas no esterco molhado: ploc...
ploc... ploc...
O uivo dos mastins, guarda-chuvas abertos, capas, tudo contribuía para
aquela fantasia.
O sacudir das lanternas dos empregados, que se
aproximavam para ajudar, assustou um dos corcéis que, empinando, jogou Chico
Nico no chão.
“Com seiscentos mil diabos! mato este cavalo.”
Levantou rapidamente e desancou o pobre animal com o
cabo do chicote. Um serviçal pegou o cabresto e se afastou celeremente,
livrando-o da sanha do dono.
“O que se passou na nossa ausência?” perguntou. “Nada,
senhor” respondeu um empregado.
Mesmo que tivessem problemas, a resposta seria a mesma,
ninguém queria incorrer na ira do patrão.
Entraram. Nesta hora, a menina deu um berro e caiu
desfalecida. Correram para todos os lados à procura de socorro: esfregar
pulsos, sal, vinagre, éter e amônia. Voltou a si, mas não era ela. Notava-se
principalmente pelos olhos opacos, sem vida, com a esclerótica revirada.
Emitia sons guturais completamente estranhos a sua meiguice natural.
O ÍMPIO
O presbítero estava agoniado por demorar tanto na
viagem, esquecia a cautela e apressava o possível, para atender o chamamento
do Chico Nico, mas o cavalo estava cansado, sobrecarregado com duas pessoas,
poderia afrouxar, queria evitar novos acidentes. Andava sempre, só parava
para os descansos essenciais e alimentação. Curiosamente, dois sentimentos
antagônicos o espicaçavam: queria conhecer o problema e tinha medo de
encará-lo. Parente longínquo do dono da fazenda Jurema, há muito não o
visitava. Conhecia bem a fama do mau-caráter. Valendo-se do parentesco,
Chico Nico lhe escrevera, contando-lhe os apertos e convidando-o ou, melhor,
intimando-o para uma visita.
Recebera a correspondência e pusera-se a cismar sobre a
situação. Estivera tentado a rejeitar, mas não ousara. Não se considerava um
santo, nem era versado em temas demoníacos. Sabia, porém, que o parente de
gênio intratável jamais lhe perdoaria se não comparecesse. Depois de tomar
algumas medidas na freguesia, avisou ao sacristão que iria se afastar por
alguns dias. Qualquer recado urgente deveria ser encaminhado para a fazenda
Buriti.
Enquanto tomava essa decisão, raciocinava. Foi por acaso
que se tornara sacerdote. Último irmão de uma família de doze, e pobre,
cresceu com os demais, livre de educação e com trabalho pesado. Um dia, no
arraial em que moravam, sucedeu a semana das missões. Missionários
promoveram conversões, casamentos e batismos. Havia muita festividade. O
garoto observou que os pregadores eram saudáveis, alegres, bem nutridos e
respeitados. Chegou à conclusão de que a vida religiosa lhe convinha, por
esses motivos. Se enturmou com os redentoristas, ajudou-os a celebrar missa,
fazia-lhes as vontades, arranjava o altar, participava das procissões e da
limpeza da igreja. Foi tão simpático e fervoroso que acabou sendo convidado
a tentar o ministério religioso. Aceitou de pronto, pois viu aí a grande
oportunidade para escapar do marasmo da vila e da vida. Os pais reagiram
fracamente a tão recente vocação, contudo, os padres os fizeram ver que a
sorte sorrira ao menino e que um futuro brilhante o esperava. Concordaram.
Uma boca a menos para alimentar fez a diferença.
Findas as missões, o menino partiu com os predicantes,
largou para trás parentes, amigos e trabalho.
A vida no seminário era dura,
duríssima, penosíssima mesmo. Levantava-se às quatro da manhã: rezas,
orações, ladainhas, missa, estudos da Bíblia, latim, grego, religião
comparada, filosofia, psicologia, ciências, sociologia e trabalhos diversos,
por cinco anos. A comida saudável, sem exageros. Muitas vezes pensou em
desistir; entretanto, lembrava das privações e da vida medíocre que o
esperava no povoado, ganhava ânimo e continuava os estudos. Mas não tinha
mesmo vocação para o ministério. O sangue quente por qualquer motivo punha-o
às turras com os colegas. Além disso, tinha pensamentos pecaminosos. Ele
mesmo se apanhou diversas vezes divagando sobre as formas femininas das
santas. Transportando as idéias para as meninas, via-as nuas e ele roçando
as mãos pelas carnes macias e quentes, sedosas, procurando com os dedos
acariciar-lhe os peitinhos, mergulhando voluptuosamente nas partes íntimas.
Um mundo de tentação, desconhecido e maravilhoso. Alisava o sexo, suspirava
de prazer, tinha poluções fortes em sonhos. Não
demorou a encontrar colegas afeminados que se dispuseram a satisfazê-lo em
seus anseios por mulher. O hábito faz o monge, um adágio popular, não valeu
para Afonso. O noviço logo que envergou o estamenho se julgou autorizado a
praticar todos os absurdos que lhe vinham à telha. Tornou-se um prelado
libidinoso, sem-vergonha, salafrário e iconoclasta. Em um acesso de fúria
pegou um facão e degolou todos os santos e santas da igreja. Pôs as cabeças
num saco de aniagem e enterrou-as no adro. Colocou os corpos decepados
empilhados na sacristia. Em outra ocasião, muniu-se de um martelo e se
dirigiu ao cemitério onde depredou cruzes, lápides, túmulos e anjos. Tudo
foi destroçado. Os crentes, horrorizados, pediram ao bispo seu afastamento
da paróquia, sem sucesso. Tirassem-lhe a batina, apareceria o demônio, o
tratante. Tinha a alma, o corpo e a mente maus, perversos, e impulsos
homicidas. Algumas vezes sacou o ponto .38 para ameaçar os paroquianos.
Existia outro complicador. Tinha namorada ou, melhor dizendo, amásia. Por
isso era objeto de fofocas e de galhofas. Diziam que, no início do namoro,
escrevera um bilhete à amada reclamando que o amor sem beijo era igual o
doce sem queijo. Verdade ou não ele era desmoralizado o bastante para temer
as forças do mal. Este foi o ministro chamado para exorcizar a filha de
Chico Nico. O insucesso era previsível.
O que quer que possuísse Rita não tinha o menor receio
do eclesiástico. Sabia que ele vendia hóstia aos pobres quando da comunhão
pascal. Dera-lhe um tombo no morro da Fumaça e ainda tinha outros recursos.
Em tempo oportuno seriam mostrados.
Padrinho, o padre e afilhado estavam serpenteando morro
abaixo em direção à fazenda Jurema/Buriti. Mais quatro horas e chegariam ao
destino. Desciam devagar, pois o monte, envolto em névoa translúcida,
dificultava muito o caminhar, da montaria.
O garoto agarrava com força a cintura do cura que, para
evitar outros tombos, conduzia com extremo cuidado.
O calor do jovem estava provocando pensamentos lúbricos
no padrinho que, entretanto, sabia se conter. O menino, muito curioso, o
interrogava a miúdo sobre o problema que iriam enfrentar. O pároco procurava
explicar:
“Meu filho, segundo nossa crença e com base em texto da
Escritura Sagrada, o diabo ou que nome tenha é uma entidade má que existe
desde o princípio do mundo. Conta-se que ele convenceu Eva, no paraíso, a
comer a fruta da árvore do bem e do mal, e enganou Adão, o primeiro homem
que comeu da mesma fruta. Ambos foram expulsos por terem desobedecido às
ordens de Deus. Nossos sofrimentos decorrem desse fato.”
— Quem criou o diabo?
— Deus criou os anjos. Um deles se rebelou; chamava-se
Luzbel. Na hierarquia angélica era um Serafim. Ele, formoso, orgulhoso e
invejoso, queria ser igual a Deus. Houve uma batalha no Céu. Os anjos
comandados pelo arcanjo Gabriel venceram. O rebelde e companheiros foram
lançados no inferno. Há quem diga que esse inferno é na terra, onde
habitamos. Pessoalmente, estou de acordo com esta versão: estamos no
inferno, mas o excomungado precisa de um quartel-general de onde administra
os domínios e mantém as instalações para os tormentos. Satã, Demônio,
Lúcifer, tem incontáveis nomes e nos persegue sem cessar ou descanso,
tentando-nos para cairmos em pecado mortal e perdermos nossas almas. É uma
luta terrível entre o bem e o mal. Aqueles que caem em erro vão sofrer penas
eternas e serão assados no fogo do Inferno. Os que não fraquejarem irão para
o céu, a mansão dos bem-aventurados, e contemplarão Deus. Outros que
cometeram pecados de grau leve passarão algum tempo no purgatório, até que
as rezas dos católicos e o beneplácito do Senhor os tirem de lá. Quanto à
atuação de Satã, ela se apresenta de vários modos: infestação, obsessão e
possessão. Esta é a mais grave. Ele toma um corpo e começa a comandá-lo, aí
faz prodígios. Tem força fora do comum, lê pensamentos, adivinha o passado e
o futuro, fala e compreende línguas estranhas. Não suporta objetos sagrados.
Dizemos, nesse caso, que o indivíduo está possuído, possesso ou
endemoninhado.
— Isto acontece muito?
— Certamente. O mundo é perverso. Grandes pecadores
estão aos montes por aí. Vez por outra, o demo quer levar alguém para as
profundezas. Quase sempre são jovens, porque são mais frágeis, ou melhor,
mais imaturos. Ao mesmo tempo, servem de exemplo aos pais, que vêem
concretizar-se, materializarem-se as maldades e impiedades. Menino, não sei
se você suportará o que está por vir; em todo o caso mandá-lo-ei de volta,
se desistir.
— Não! Quero ficar e ajudar, se for possível, e estou
muito contente.
Enquanto conversavam, terminavam de descer a trilha do
morro da Fumaça. O longo caminho findou sem problemas; apenas um escorregão
aqui, outro acolá, davam pequenos sustos nos cavaleiros. Entraram na
planície enlameada que antecedia Santa Bárbara, atravessaram o lugarejo e
horas depois estavam no cercado da fazenda.
Dentro de casa de fazenda o cão gargalhava antegozando a
vitória, pois o homem de saia tinha culpa no cartório.
Foram recebidos por Chico Nico, que segurou com uma das
mãos o freio e o cabresto para o tonsurado apear com maior segurança, ao
mesmo tempo em que dava a outra mão ao garoto para ajudá-lo a pular da
garupa. Com calorosos cumprimentos, o fazendeiro convidou-os a entrar.
Na ante-sala esperavam os demais membros da casa,
parentes, serviçais e hóspedes, sempre cheia de curiosos que vinham ver a
energúmena. Feitas as devidas apresentações, o visitante pediu para ser
conduzido à infeliz padecente, no que foi prontamente atendido. Tinha a
secreta esperança de que fosse um caso de epilepsia ou outra forma de doença
mental. Dirigiu-se ao quarto; a mãe abriu a porta e adentraram no recinto. O
ambiente frio, fracamente iluminado, pesado, exalava velas, desinfetante,
urina e fezes. Os olhos do padre, aos poucos, foram se acostumando com a
escuridão; ele a viu deitada de bruços. Pegou a candeia e se aproximou da
cama. Ela, com as faces voltadas para o canto, rápido se virou. As bochechas
encovadas, os olhos vítreos, a espuma no canto da boca, formavam um quadro
dantesco. Afonso desviou os olhos. Rita sentou-se, como se movida por uma
mola, estendeu a mão em direção ao sacerdote e com voz roufenha:
— É este que veio me tirar? Ele tem amante! A carta da
namorada está escondida no bolso da batina!
O espanto foi geral, o estupor do vigário, doloroso.
Entretanto precisamos voltar um pouco nesta história
para saber o quê ou quem estava perseguindo Rita, o porquê sabemos: é só
relembrar os xingamentos de seu pai, sua briga com um vigário e o trauma de
Rita com os asseclas de Chico Nico.
LÚCIFER... POBRE
DIABO
Vamos fazer ligeiro parágrafo e
visitar rapidamente o diabo no seu (dele) lar. Sentado no riquíssimo e
monumental trono, na sala de audiências, percorria com olhos absortos todo
aquele amplo espaço, outrora tão animado e agora inteiramente vazio e
silencioso. Com os cotovelos firmemente apoiados nas braçadeiras, descansava
o queixo sobre as mãos em concha, tristonho. Sabia que algo estava errado.
Pelo vão das janelas o sol brilhava. Logo onde! Onde deveriam imperar as
trevas eternas. O que acontecera com os relâmpagos, os trovões e as chuvas
de granizo, de fogo ou ácidas? Pandemônio, a capital, não fazia jus ao nome.
Era um mar
em calmaria. Os
gritos, os lamentos, os choros e o ranger de dentes dos condenados, que eram
música para os ouvidos, haviam cessado. Algumas gargalhadas distantes o
irritaram profundamente. O cúmulo. O Averno se corrompia. Até o palácio
estava se deteriorando. Urgia providências...
— Astaroth!
O grito ecoou pelas cúpulas douradas do Inferno,
reproduzindo-se interminavelmente: oth, oth, oth...
—
Astaroth! oth, oth, oth... — repetiu o eco.
Esperou, longamente, um, dois ou três minutos. Silêncio mortal.
— Belial! al, al, al...
Pegou a trombeta, soprou violentamente como se estivesse
decretando o fim do mundo. O clangor reverberou pêlos corredores, salões e
abóbadas. Esperou o silêncio. Apanhou a enorme baqueta enchumaçada, com as
duas mãos, bateu-a, seguidamente, no gongo e o retumbo se repetiu
indefinidamente: ong, ong, ong...
Ele se sentia desprestigiado, desrespeitado e ignorado.
A corte volatilizara-se, os íncubos e súcubos não apareciam para
reverenciá-lo. Belfegor e Mamom há muito não eram vistos.
O Tártaro estava abandonado. A indisciplina e o desleixo
campeavam. Faltava azeite no estoque, e o dos caldeirões estava aguado. A
lenha, verde, fazia muita fumaça e pouca caloria. Dava para se respirar,
razoavelmente bem, pois o cheiro de enxofre quase desaparecera. Os tridentes
estavam rombudos e os ambientes onde deveriam vigorar a escuridão eterna
estavam bem claros.
— Behemot! Asmodeu! Pazuzu!
Resolvera apelar para outros auxiliares. Nada.
Depois de longa espera, acudiu Azael, que exercia o
papel de secretário-substituto. Foi logo informando que Baalberith, o
titular, estava de férias ou afastado para tratamento de saúde.
— Onde andam vocês que não atendem os meus chamados? São
uns irresponsáveis, meus domínios estão decadentes. Onde está Magistellus,
meu incubo preferido?
— Chefe, todos os nossos estão ocupadíssimos,
trabalhando lá fora.
— Impossível, somos 2. 665. 866. 746. 666.
— Não, ao longo de milênios temos tido algumas
defecções; perdemos 666 milhões.
— O quê! Enquanto tentamos os lá de fora, temos
desertores em nossas hostes? Esta não!... 666 é o número da besta. Sim, sou
uma besta quadrada, acontece traição no meu território e sou o último a
saber.
— Além das nossas baixas, na terra os pecadores são
muitos, precisamos ajudá-los um pouco e às vezes usamos uma legião por
homem. Na verdade, precisamos de reforços suplementares para atender o nosso
portfólio. Vamos reduzir a guarda palaciana — aduziu o auxiliar Azael.
O rei pôs as mãos na cabeça, e enquanto acariciava os
chavelhos, manteve-se silencioso.
— Às vezes me confundo. Sendo os homens, por natureza,
maus, por que precisamos de tantos dos nossos para seduzi-los? — Formulou a
questão mais para si mesmo do que para o secretário.
Azael ouviu e respondeu: — Chefe precisamos
incentivá-los a permanecer no mal, fazê-los diversificar nas maldades,
evitar recaídas no bem e os arrependimentos; obsessar os bons, para
induzi-los em erro, etc., etc.
— Onde estão Belzebu, Lucífugo, Satanaquia, Fleurity,
Sargatanas, Nesbiros e outros da cúpula?
Azael engoliu
em seco. Não
podia responder que a turma caíra na farra com os homens, piores do que
eles. Assim, ficou calado. Não queria ser dedo-duro.
— Aonde foram minhas mulheres Lilith e Naema? Elas estão
me pondo chifres! Sequer me visitam na alcova.
— As mulheres são muito espertas — disse Azael
evasivamente para não se comprometer.
Lúcifer era polígamo. Além das consortes citadas tinha,
legalmente, mais duas: Agarat e Moclat e ainda gostava de dar umas escapadas
com as grandes cortesãs; isto tudo sem considerar Prosérpina, arquidiaba, a
deusa do Inferno, com a qual mantinha um tórrido e tumultuado romance. "O
Vampiro", semanário respeitável, registrava com humor as estripulias e
aventuras eróticas luciferianas.
— O Inferno está esfriando. Posso sentar em meu trono
sem usar almofada de amianto. Há evidentes sinais de relaxamento aqui e, na
Terra, as invocações são ignoradas. Vamos fazer uma inspeção geral.
Pegou um molho de chaves. Saiu acolitado por Azael, que
lhe pôs uma capa nas costas para protegê-lo do frio.
Atravessaram um magnífico jardim, cuidado pelos
condenados. Nele deveriam existir as plantas carnívoras, tóxicas
espinheiros, bem como animais repugnantes e insetos horríveis mas, ao
contrário, rosa, cravos, lírios, margaridas, crisântemos e cítricos
abundavam. Foram, desde a saída do gabinete, acompanhados por um enxame de
abelhas. Que escárnio: ele se intitulava o senhor das moscas.
Súbito, Lúcifer pulou de lado e gritou: — Corta este
avelós!
— Por quê? É tão bonito, tem espinhos tão agudos. —
contestou Azael.
— Estúpido! Ele é também chamado coroa-de-cristo. Tenho
alergia a este nome.
Passaram por uma ponte sobre um regato de águas
sulfurosas (não medicinais) e entraram no primeiro pavilhão. O lugar era bem
bolado. Todo compartimentalizado, possuía ambientes especiais para o flagelo
das almas, tais como: caldeirões de azeite, fornalhas para assar, água
fervente para os sedentos, tambores de breu, frigoríficos, sofisticados
aparelhos de tortura e complementos. Sofrimentos cruéis estavam previstos;
só que nada funcionava bem. A qualidade de "vida", quer dizer da morte,
havia melhorado substancialmente para os mortos, com grande decepção de
Lúcifer.
No depósito de ferramentas, um desastre, uma lástima, o
descontrole: as prateleiras vazias, ganchos, tesouras, serras, pinças,
tenazes, grelhas jogadas pelo chão; enferrujadas, quebradas, inutilizadas.
Um monte de sucata. As colunas de aço, que deveriam estar quase no ponto de
fusão onde as almas deveriam ser acorrentadas, há muito estavam frias e
oxidadas. Não se via uma corrente íntegra, nem candidatos ao suplício, nem
carrascos; uma bagunça, enfim.
Na repartição de aquecimento central os fornos estavam,
em grande parte, desativados. Até fazia frio naquela ala. Ah! As forjas de
Pedro Botelho, quanta ironia; uma desmoralização para quem se orgulhava do
terror que causava aos que eram enviados ao fogo do Inferno, que por
definição queimava mil vezes mais do que o da Terra. Xaphan, o responsável
pelas caldeiras, foi, no ato, exonerado da função e, de passagem, Leonardo,
o presidente dos sabás das feiticeiras, que fazia de tudo para não ser
visto, levou um puxão de orelhas, porque andava muito relapso e
desacreditado.
No setor número sete, o grupo aumentara muito, pois onde
passavam, mais bajuladores aderiam à entourage do diabo.
— Onde está aquela linda fonte de ácido sulfúrico?... E
o pântano de águas salobras?
— Secaram, — respondeu Leviatã, o encarregado local.
— A propósito, ó digníssimo — interrompeu o terrível
Adramelech, o grande chanceler, adiantando-se — tenho aqui este documento,
para lhe entregar há dez dias. Entretanto, estava muito ocupado com a
burocracia interna.
Satã arrancou-lhe o envelope das mãos. Abriu-o e leu:
“Nós, abaixo-assinados, os mártires que, por especial
concessão do supremo Criador, vimos periodicamente a este local para
assistir aos flagelos de nossos algozes, informamos que, suspenderemos
nossas visitas, em face dos tormentos não ocorrerem continuamente e porque
os horários programados não são cumpridos.”
Foi o que faltava para a explosão: Lúcifer soltava fogo
pelas ventas, chispas pelos olhos, vapores deletérios pela boca e fumacinhas
pelos ouvidos. Olhou de viés para o desastrado Adramelech.
— Patife! Você me criou um incidente diplomático com o
pessoal do empíreo. — Deu-lhe um tabefe, no pé do ouvido, que o mandou a dez
passos de distância.
Sentiu-se mais calmo. Continuou a inspeção no oitavo
galpão, o dos condenados especiais. Almas danadas, lídimas representantes da
maldade humana, ali estavam. Átila, rei dos hunos, que brincava com as
cabeças de alguns dos milhares que decapitou; um profeta e o faraó discutiam
a técnica de separação das águas do mar; os conquistadores espanhóis
continuavam afiando as espadas nos incas, astecas e maias; num grande salão,
numerosos pontífices promoviam a venda de indulgências, incentivavam
guerras, envenenavam e ou absolviam genocidas, em nome do Salvador.
Calígula, Nero, Cômodo, Caracala, ex-imperadores romanos se divertiam em
rememorar atrocidades que praticaram quando encarnados. Foram vistos,
também, os Bórgia, especialistas em aquatofana e punhais. Torquemada e
demais inquisidores; bem como, a turma que decretou a noite de São
Bartolomeu. Numa suíte, atapetada, luxuosa, habitava Adão. Aquele que, por
trapalhadas com nossa mãe Eva, foi expulso do Paraíso. O bom Deus cassou-lhe
a mordomia. Entretanto, não estava infeliz, muito pelo contrário, fora-lhe
concedida a companhia da cara-metade e eles se compraziam em comer maçãs o
dia inteiro. Por deferência especial do maioral, não havia diabrete para
importuná-los. Nas termas, Messalina, Teodora, Cleópatra, Marósia, Lucrécia
e outras, combinavam um bacanal.
Todos os hóspedes continuavam praticando as mesmas ações
e maldades que os levaram à condenação. Como estavam as coisas, não era
castigo e, sim, promoção.
Notando que algumas celas estavam superlotadas, pois,
quem levantava o braço não podia abaixá-lo, tal o aperto, elogiou:
— Parabéns, aqueles sofrem sufocação eterna.
— Não é por nós, mestre, é excesso de políticos
corruptos. Também, o oponente, lá de cima, com a mania de chamar muitos e
escolher poucos... 99% deles estão aqui. Breve, teremos de construir um
anexo.
— Reforça nossas legiões com alguns deles. São uns
velhacos. Que raça miserável, cuidado com eles, são falsos e capazes de
perverter e corromper os guardas.
Continuou o exame por outros locais sem qualquer
melhoria para o humor do "imaculado". O rio Aqueronte, que deveria ter as
águas putrefatas, estava mais límpido que muitos rios na Terra.
Lúcifer estava irritado, não se conformava com tanta
impudência, interrompeu a fiscalização no nono pavilhão porque parecia uma
repartição pública, ninguém o reconhecera, exigiram-lhe que se
identificasse, pois estava sem o crachá. Retornou à sala do trono, onde
preparou um decreto. Chamou Alastor, o executor das decisões infernais.
Passou-lhe o papel.
— Resolvi baixar uma lei para execução imediata.
Trata-se de uma reorganização geral do Inferno. Você tem carta-branca para
exonerar, transferir, afastar qualquer elemento, inclusive da alta
administração.
— Vossa majestade não está sendo muito rigoroso? — ousou
argumentar. Alastor era atrevido.
— Certo, estou. É preciso; em 9.720 anos, jamais vi
tanta desídia e incompetência. Aja implacavelmente. Convoque Mulciber, o
arquiteto, para reformar o palácio. Enquanto isto vou tirar umas férias,
estou esgotado, preciso me divertir um tanto. Há muito ouço alguns desaforos
vindos de fora como: "corisco! diacho! demo! Se ele aparecer vamos cruzar os
bigodes. Não temo o Demônio, etc." Não aceito provocação, vou comparecer. .
— Digníssimo, deixa que eu resolvo. O assunto é de
somenos, enquanto aqui grave é a crise. — Obtemperou Verdelet, o
mestre-de-cerimônias e encarregado do transporte das bruxas ao sabá.
— Ó poderoso mandatário — interrompeu Verrine, diabrete
protegido, bajulador — permita-me fazer o serviço, afinal sou co-autor da
opressão daquela gente. Adoro infestar.
— Negativo! Isto é ponto de honra. Azael assuma a
governadoria, dê todo apoio a Alastor. Até mais tarde.
O que ele não sabia é que iria demorar muito mais do que
planejara e, acima de tudo, estava dando mal exemplo, afastando-se do local
de trabalho em momento crucial, logo ele, o chefe.
Ouviu-se um estrondo, uma fumaceira se levantou, forte
cheiro de enxofre se fez sentir. Lúcifer desapareceu. Voou através do vulcão
Vesúvio (ou seria o Etna?), pousou numa moita de bambus gigantes, na qual
fez um estrago total. Adotou a forma de um negrinho serelepe. Foi visitar
Chico Nico, na fazenda Jurema. Era rotina um diabo, vindo do inferno, cair
sobre uma moita de bambu.
Aguarde em breve, continuação...