por Asséde Paiva
(rosarense), bacharel em Direito e Administrador. Autor de Organização de cooperativas de consumo (premiado no IX Congresso Brasileiro de Cooperativismo, em Brasília); Brumas da história do Brasil. RIHGB nº 417, out./dez. 2002; Possessão, São Paulo: Ícone Editora, 1995; O espírito milenar, Goiânia: Editora Paulo de Tarso, s.d. Trabalhou na CSN 35 anos.

 
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JUIZ DE FORA
MINHA TERRA, MINHA GENTE
  
Louvar o que está perdido / torna querida a lembrança.
Shakespeare

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Os elefantes... vamos deixar pro fim...

... E o tempo passou...

De repente, não mais que de repente senti o peso dos anos, acho que estou ficando velho... afinal, foi tudo muito rápido, nem vi os anos passarem, ou vivi. Ainda ontem, estava num berço de palha em Rosário de Minas.  Ainda ontem morava em Paula Lima, Chapéu D’Uvas, Benfica e em pensões no centro de Juiz de Fora. Meu Deus! Como esquecer os tempos de Granbery; os colegas de classe e os professores!?  E de repente estava trabalhando na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda –– RJ, onde galguei postos importantes e inesperados. Fui até presidente de uma empresa controlada da CSN. Inacreditável mesmo: um moleque sem eira nem beira chegou lá: nas alturas. O caminho foi tão difícil, que nem percebi sua dureza. De repente... fiz oitenta anos. A ficha caiu? Acho que sim... Sinto a vida pesar e muito, desde então, ao entrar em ônibus, sinto alguém bater em meus ombros e ceder lugar para mim. Comecei a pensar no que passei, nas agruras e nos bons tempos. E também no que virá... estou com medo, sim... Acho meu horizonte curto, mas quando partirei? Será logo, logo, ou vou ter um adicional de sobrevivência? Terei revalidação de prazo, ou vão puxar minha ficha? Tenho receio do outro lado da estrada, da escuridão, ou será a luz. Bem, não adianta chorar sobre leite derramado; vou mesmo ter que bater um papo com Ele, quando tudo será esclarecido. Talvez ouça aquela frase surrada: “Meu filho, quando sua vida era mais pesada eu ajudei a carregá-la”. Vamos acreditar que assim será. Aliás, esta hipótese é melhor do que encarar o ‘portador da luz’. Pena que não possa trazer notícia da experiência no além; ninguém pode, ninguém voltou de lá para nos dizer...Neste mês de setembro, 2014, nos dias 13, 14 e 15, resolvi voltar a Juiz de Fora para rever a cidade que tanto amei e ao mesmo tempo rever amigos. Também queria participar dos festejos dos 125 anos do Granbery, o colégio que foi oásis da minha vida. Foi muito bom ter voltado. Visitei Antônio (Toninho) Teixeira de Carvalho, colega de adolescência em Chapéu D’Uvas, e em JF. Encontrei-o em sua casa, no Bairro São Mateus. No dia do encontro, Toninho não pode conversar, porque havia um problema em suas cordas vocais. Foi emocionante nos revermos setenta anos após. Toninho e esposa foram tão agradáveis comigo, ficaram tão alegres; conversamos por escrito, tomamos farto café, quando, então, aproveitei para relembrar que era o segundo café que tomávamos juntos; o primeiro foi na sua fazenda, em Chapéu D’Uvas, e preparado pela senhora sua mãe Helena. Quanto pó de saudade levantou! Quantas risadas e choro demos. Deus lhe abençoe Toninho, amigo do passado remoto. Que Deus lhe dê muita paz e muita saúde! Ainda no mesmo período, fui ao Granbery onde revi Arnaldo Mendes dos Santos, uberabense, meu antigo colega de quarto no internato do Granbery. Arnaldo chorava como criança e afirmou que se eu não aparecesse, ele iria a minha casa, em Volta Redonda, para me ver (quanta honra!). Digo que ele faria isso, por que veio de Uberaba a JF, poderia ir a Volta Redonda; seria só mais um pulo. Recordamos brincadeiras como colegas quarto, as chicotadas com toalha, e de Dona Marta a inesquecível mestra e chefe de dormitório dos menores. Afinal, tínhamos apenas 13 e 14 anos respectivamente. Inesquecíveis tempos, dulcíssimas recordações. Na mesma festividade, reencontrei Affonso Henriques Prates Corrêa, o colega de turma, no primeiro ginasial. Este menino não precisava estudar para tirar nota 10 (um cérebro privilegiado). Estava escrito que minhas emoções seriam maiores ainda. Ao passar, com minha irmã, Norma (Norminha) ao lado do antigo Grupo Escolar Antônio Carlos, em Mariano Procópio, bairro de JF, eu senti imensa, incontrolável vontade de entrar no templo, onde fiz o quarto primário. A portaria é a mesma. Entrei... à atendente falei: “Moça, estudei aqui em 1945, por que sei a data? porque foi quando a II Guerra Mundial terminou. As aulas foram suspensas, fomos ao pátio onde a diretora discursou sobre o fim da guerra e tocaram o sino em regozijo” –– e disse mais ainda: –– “Minha professora chamava-se Rosa Ladeira Halfeld”. Consegui a relação dos aprovados, e meu nome estava lá. Instantaneamente relembrei de Dirceu Pinto Ribeiro, meu colega de classe e protetor. Não ficou só nisso, ainda visitei Dirceu que me pôs a par de suas realizações na vida (um vitorioso). Ele se lembrou de mim, depois de nossa convivência no Grupo, nunca mais nos vimos. Contem os anos, amigos e amigas: 1945-2014. Isto é tudo que gostaria de escrevinhar para vocês: amizades, de verdade, não acabam jamais, ainda que sob a poeira do tempo (no caso sete décadas). Não posso deixar de dizer que fui a Benfica onde almocei com Alessandra Patrícia e Sander excelentes amigos. No outono da vida estou, e eles na primavera estão. Amizades não conhecem espaço/tempo. Acontecem. Com eles fui visitar minha tia Olívia (90 anos) que contou estórias sobre mim quando fui cacheiro no armazém dela, em Paula Lima, mas isto será visto depois... ou já foi contado?

Agora, que revi bons amigos, pronto estou é chegada a hora de ir para o oriente eterno. Não vai demorar... ou vai? Só me resta declamar uma trova pertinente:

Minha gente vou-me embora / mineiro está me chamando / mineiro tem este jeito: /

chama a gente e vai andando. //

Ah! os elefantes. Não me esqueci. Dizem que eles pressentindo o fim, caminham para um lugar mítico, onde vão descansar os ossos. E os humanos? No dizer de Guimarães Rosa, o homem não morre nunca, fica encantado.

FIM

 
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Texto publicado no Benficanet em 17/11/2014

Comentários:

Helena de Paula - Praia Grande - São Paulo - 24/07/2015
Parabéns Assede, adoro ler teus textos. Viajo ao passado revejo lugares e pessoas que marcaram minha vida. Bjos

Asséde Paiva - Volta Redonda - RJ - 08/01/2015
Cara! Você me deixou emocionado. Obrigado

Joalser - Marthas Vineyard, USA-Benfica - 14/12/2014
Sr. Asséde, é muito bom e gratificante ler o que o Senhor escreve! O tempo pode passar mas pessoas como você sempre ficará.

Alessandra (Benficanet) - 17/11/2014

Sempre me comove o carinho expressado pelo Sr. Asséde quando se trata de suas raízes. Um homem com muita história...
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