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Recordar é Viver!

por Asséde Paiva (setembro, 2011)
(rosarense), bacharel em Direito e Administrador. Autor de Organização de cooperativas de consumo (premiado no IX Congresso Brasileiro de Cooperativismo, em Brasília); Brumas da história do Brasil. RIHGB nº 417, out./dez. 2002; Possessão, São Paulo: Ícone Editora, 1995; O espírito milenar, Goiânia: Editora Paulo de Tarso, s.d. Trabalhou na CSN 35 anos.

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Relembranças de Chapéu D’Uvas
Parte IV...
Horresco referens.
Estremeço ao lembrar.
Virgílio (170-19 a.C.), in Eneida.

Eu conheci muito bem Geraldo Ambrozino. Quem se lembra dele? Tinha sido guarda-freio da Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB). Infelizmente, sofreu um acidente de trabalho e ficou sem as duas pernas. Eu o conheci já sem as pernas, quando morava ao lado da caixa d’água, onde os maquinistas enchem o tanque de suas locomotivas sedentas. Geraldo, para minimizar os problemas de locomoção, construíra um carrinho onde se postava e que era puxado por dois bodes (ou seria um?); e assim rodava pelo arraial de Chapéu D’Uvas, à vontade. Ele também gostava de tomar umas e outras, talvez para esquecer problemas, sei não. Quem mora na casa é que sabe onde está a goteira. O homem tinha acessos de cólera quando se embebedava e dava cacetadas nos móveis da casa. Por causa de sua deficiência física, ele não podia correr atrás dos meninos e eles fugiam para não apanhar. Fora disso, Geraldo era boa pessoa. Eu tinha receio dele; pensava que, em momento de fúria, podia pegar do chicote e bater em mim como fazia nos bodes. Nos filhos nunca o vi bater, isto não. Minha amizade com Geraldo surgiu da leitura. Ele gostava de ler. Era um bom modo de sonhar e fugir da realidade. Eu gostava de ler, também; e assim, tínhamos cumplicidade. Lembro-me de que ele uma vez me emprestou um livro chamado Pérolas esparsas, de uma editora protestante. Fixei na memória o titulo do conto Guardai-vos dos adivinhos. Estória de um maquinista que parou o trem, justo na hora de cair num rio, cuja ponte tinha sido levada pela enchente. O condutor parou porque uma mosca agitava-se no farol da máquina, sem cessar e ele pensando ser um aviso do céu, puxou os freios antes do abismo. Geraldo me emprestou o livro e outros, bem como almanaques Capivarol, Saúde da mulher e contos da Carochinha. Eu sempre fui amigo de leitores: Sô Cândido, o feitor, Valinho, Rio Novo e outros. Pois bem, certa feita caminhava pela estrada que margeava a ferrovia, na altura da casa de dona Inacinha, quando ouvi gritaria. Um trem que manobrava em linha auxiliar, por ali, reduziu a velocidade lentamente. Corri em direção ao povo que corria. Cheguei bem a tempo de ver Geraldo que, apesar da deficiência se arrastava velozmente sob cerca de arame farpado, que separava a estrada de chão da estrada de ferro, passar sobre dormentes e trilhos abraçar o companheiro que acabava de ter o mesmo destino dele: ter as pernas cortadas por um vagão. Aliás, isto acontecia com frequência, porque guarda-freio tem que se meter entre vagões em movimento e proceder a certos ajustes, para desengatar um vagão do outro. Eu, moleque de uns doze anos, estava petrificado de terror. Geraldo queria se jogar debaixo de outra composição que passava na linha principal, bem devagarzinho. Gardina e dona Isaura gritavam “Jesus, meu Deus!” Os demais participantes do trágico evento e lembro de os dois Teodoros (ferreiros e armeiros), Pedro Pião, José Lourenço, entre outros, contiveram o gesto insano de Geraldo. O maquinista entendeu o tumulto e deu cinco apitos abafados, tristonhos, em código Morse, traduzindo dor de todos. Socorristas ajudaram a retirar o ferido e Geraldo para fora dos trilhos e postos à beira da ferrovia. Isto se deu na minha frente com meu coração latejando. Improvisaram padiola e levaram o ferido para estação. Lá, seu Valinho, o Agente, chefe da Estação, solicitou a Mimi, o radiotelegrafista, que passasse mensagem a Juiz de Fora pedindo instruções. Mandaram que pusessem acidentado na primeira composição que passasse. Como era mais ou menos duas da tarde, o rápido ainda estava para chegar. O rápido, R1, não parava em Chapéu, mas o caso era excepcional e determinaram a Rio Novo, o guarda-chave, que sinalizasse para o trem parar. Isso foi feito e o Rápido estacionou. Abriram o vagão dos correios, estenderam lençóis e deitaram o infeliz manobreiro. E eu assisti a tudo horrorizado com aquela cena, ao lado da plataforma. A quantidade de sangue que jorrava, ensopava os lençóis. O trem partiu rápido como o próprio nome, para Juiz de Fora levando o infeliz guarda-freio para Santa Casa. Tarde demais, ele morreu no caminho, exangue. Desde então, falavam que em certas noites, o guarda-freio reaparecia no local do acidente e se punha a lamentar e a procurar suas pernas. Tudo folclore, mas eu acreditava piamente. Claro que evitava passar por aquele lugar à noite. Quem não tem medo de fantasma, alma penada etc.? Nunca mais vi Geraldo Ambrozino, que pelo muito que sofreu, pela atenção que me deu, espero esteja junto a Deus... Aí vem outra estória (que se liga a esta), das quais fui coadjuvante/participante privilegiado.

Meus pais moravam do outro lado da linha, num sítio anexo à fazenda Sesmaria, onde tiravam leite, faziam queijinhos e coisas da roça. Queijo nos lembra da vaca, que o leite nos dá. Daí, eu peço licença para contar um caso do poder da mente:

Um fazendeiro de nome Anísio nos cedeu uma vaca de nome Figurona. Tinha este nome porque era branca, altiva; grandes chifres, encurvados como parênteses e fazia presença. Só que ela perdera a primeira cria e estava 'segundando', quando Anísio Vieira nos pediu para esgotá-la, isto se fosse possível, porque ela não permitia que ninguém se aproximasse. Meu pai aceitou a incumbência e levou-a ao curral. Eu era o adolescente que auxiliava o retireiro, i. é, amarava as patas da vaca, com cordas de crina, jungia bezerros na pata dianteira e dava a caçamba para o retireiro. Tentei amarar Figurona. Quem dera! Ela saltou e saltou. Passei as cordas ao meu pai, que conseguiu amarrá-la com firmeza. Mas quando tento tirar o leite, ela danou a pular e a escoicear e remexer quadris e pernas, até que se soltou. Meu pai passou-lhe o parão e me deu pra segurar. Em seguida, pegou a vara de ferrão pela ponta e deitou o malho na figurona. Ela berrava, mugia, babava e a cacetada descia, fazendo riscas no couro de Figurona. Por fim, a soltamos quase morta de tanta bordoada que levou. No dia seguinte e nos outros, ela se deixava amarrar, mas não descia leite algum; quando muito, meio litro e olhe lá. Um dia, meu pai viajou e não tinha quem tirasse o leite das vacas. Nós morávamos à beira do caminho que ia pra fazenda do Cafundão. Minha mãe pôs-se à janela esperando o leiteiro do Cafundão, que passava por lá em direção à estação para mandar o leite para a cooperativa de Benfica. Esqueci o nome do leiteiro, mas não do seu feito. Quando ele passou, minha mãe o interrompeu, pedindo que ele ordenhasse nossas dez ou doze vaquinhas. O pessoal da roça é solidário e bondoso. Ele prontamente acedeu e se dirigiu ao curral onde vacas e bezerros mugiam, esperando a ordenha que se fazia tardar. Pois bem, para encurtar esta estória, o retireiro chamou de pronto, Figurona. Incrível! Ela atendeu. Nem a amarrou, jogou as cordas aos seus pés, que quietinha ficou. Ele pôs-se de cócoras, pegou a caçamba e ‘serenou’. Digo serenou, porque o leite descia facilmente do mojo intumescido, da vaca ‘brava’ pra caçamba. Em minutos, o úbere estava murcho e o balde de dez litros, cheio. Espuma derramava pelas bordas da vasilha. Que poder extraordinário tinha aquele leiteiro... ele tinha poder supranormal. Foi um momento mágico que não se repetiu na minha vida, e nunca mais Figurona deu tamanha quantidade de leite com quem quer que fosse.


E volto ao caso principal: Como a quantidade de queijos era pouca, vendíamos ao pessoal local, principalmente para Geraldo Norberto. O resto do estoque nós levávamos ao nosso tio, Sebastião Leite, em Francisco Bernardino, que os revendia no armazém de secos e molhados. As sextas-feiras, minha mãe acondicionava os queijos, dúzias de ovos e doces caseiros, em uma mala enorme e meu pai os levava. Acontece que um dia ele viajou, e como não tinha outra pessoa em casa para levar tais mercadorias, a tarefa foi delegada a minha pessoa. Aliás, gostei, pois, assim seria possível dar uma esticada a Juiz de Fora, passear na rua Halfeld, comprar gibis, assistir a um filme; enfim, usufruir a cidade. Entreguei os queijos ao tio, em Bernardino, dei uma desculpa qualquer e peguei o ônibus da Viação Diana. Fui direto à rua Halfeld. Já disse que gostava de livros, visitei a casa Zappa e, bem no fim da rua Halfeld entrei na charutaria Campos, que vendia além de charutos: cigarros, cachimbos, chocolates, livros, jornais e revistas. Era ótima para meus desejos. Manuseei livros e não podia comprá-los, porque eram caros demais para mim, mas os alisei com carinho. Entretanto, vi a um canto livros pequenos, certamente resumos de romances maiores, não eram livros de bolso, na verdade, eram quase do tamanho de um maço de cigarros. Assim, gostei do titulo Castelo de Epstein de Alexandre Dumas. Sou ou era vidrado em contos e romances de Dumas e como o preço era acessível, comprei Castelo de Epstein. Voltei à estação para embarcar para minha casa. Por motivo de descarrilamento perto de Matias Barbosa, o trem atrasou três horas e chegou à noitinha. Era o Misto, seja muitos vagões de carga e um ou dois de passageiros. Embarquei na segunda classe, porque o dinheiro era muito curto. O trem, após a bandeirada do condutor, partiu resfolegando, dando um ou dois apitos de advertência. Antes de cair em sonolência, ouvi da máquina de meu trem o cantarolar: cerejeiras do Japão, bem baixinhas rente ao chão uuuiííííííí, piuííííí. Mais ou menos na altura de Benfica, houve freada brusca. Acordei, decidi abrir a malona e degustar um pouco o livrinho que comprara. Quando leio me abstraio do meio ambiente, não sinto frio ou calor; não ouço nada, não tenho fome, enfim, viajo na fantasia, entro no enredo, sou ‘tomado’ pela estória. E aconteceu... Quando o trem deu uma parada, pensei: “cheguei” segurei a mala, rapidamente pulei na plataforma ou passarela. Parece que o maquinista só esperava meu desembarque para arrancar. Quando o trem desaparecia numa curva vi... Vi que descera na estação errada: em Dias Tavares, a quinze quilômetros de Chapéu D’Uvas. Que vacilo! No jargão de hoje, diriam que paguei o maior mico: antológico mico. Eu, estarrecido pela minha alienação; é o que acontece com quem recebe o ‘caboclo ledor’. Fiquei pensando, parafusando alguns minutos o que haveria de fazer. Não conhecia ninguém naquele arraial. A noite era um breu e havia medo no ar. Decidi e comecei a caminhar na beira da linha para minha casa. Chegaria, sem dúvida, mas ia demorar. “Era só acompanhar os trilhos”. Porém, logo, logo vi que a tarefa não seria fácil, pois, cachorros vira-latas saíam dos casebres à beira linha e com infernais latidos, buscavam me morder. Felizmente, tinha o malão e ele era minha defesa. Meu coração pulsava descompassado. Caminhei e caminhei. Quando cheguei à casa do feitor da linha, já bem longe do arraial estava cansado e desanimado. Na verdade, com muito, muito medo. Assim, com maior vergonha, pedi pousada, que me foi negada. Mas o feitor disse que eu podia esperar o rondante, no galpão dos materiais e ferramentas. O rondante devia chegar em torno de dez horas da noite. Sentei-me no local indicado e esperei uma, duas, três ou mais horas. O rondante enfim, chegou. Para quem não sabe, rondante é o empregado da ferrovia que caminha entre estações. Assim, um saía de Chapéu ia até à metade do caminho, em direção Dias Tavares. Quando encontrava o colega trocavam um bastão, prova de que cumpriram o dever, o ir e vir. No dia seguinte, repetiam a mesma operação. Agora, com um companheiro, recuperei a coragem e reiniciei a viagem, aliás, não tinha opção. Ele, o rondante, era boa gente e me levou a casa de parentes, onde tomamos café de garapa ‘com formiga’ e eu tentei desesperadamente engoli-la, tomando grandes goles, mas não consegui. Segreguei-a a um canto da boca e a cuspi para fora, quando saímos para recomeçar o trajeto. Após sete e meio quilômetros encontramos seu contraparte, que vinha de Chapéu D’Uvas. Cumprimentaram-se, acenderam cigarros de palha utilizando binga — isqueiro rudimentar; reclamaram do frio e da noite escura e partiram; cada qual, pro seu destino. Eu continuei a viagem com o novo rondante, agora meu conhecido, do arraial. Esqueci seu nome acho que se chamava Antônio ou Geraldo. Por volta de uma hora da manhã chegamos a Chapéu. Aí, para meu azar, meu companheiro resolveu passar na sua casa, antes de seguir para Ewbank da Câmara. Tive que terminar o trecho que faltava sozinho. Seria fácil, se eu não tivesse que passar perto daquele local onde se dera o acidente do guarda-freio. Meus pés pesavam como chumbo e meus passos eram lentos. Quando me aproximei da caixa d’água, escutei gemidos, meu cabelo arrepiou e o coração tuc-tuc-tuc-tuc... e fui chegando, arrastando. Já pertinho, um pássaro alçou voo... Era uma coruja ululando, soluçando: venho de coruche. Desabalei e cheguei com a língua de fora a casa. Ainda assim e apesar do susto tomei uma espinafração de minha mãe que, com toda razão, estava desesperada com minha ausência ou atraso. E nunca mais enfrentei aquela caixa d’água fora de hora.

"Yo no creo en fantasmas pero que los hay... los hay". ... Eu não creio em fantasmas, mas que existem, existem.

FINIS

Ao lado vista geral do Chapéu (hoje), a Igreja de são José. Ferrovia onde se deu o acidente.
publicado no Benficanet em 11/10/2011
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