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Recordar é Viver!

por Asséde Paiva (setembro, 2011)
(rosarense), bacharel em Direito e Administrador. Autor de Organização de cooperativas de consumo (premiado no IX Congresso Brasileiro de Cooperativismo, em Brasília); Brumas da história do Brasil. RIHGB nº 417, out./dez. 2002; Possessão, São Paulo: Ícone Editora, 1995; O espírito milenar, Goiânia: Editora Paulo de Tarso, s.d. Trabalhou na CSN 35 anos.

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Revisitando Chapéu D’Uvas
Parte V...

AYMORÉ FUTEBOL CLUBE
Deixei meu berço por destino incerto; / mas a paisagem guardo-a na pupila, / guardo-a no coração, donde se estila / toda a essência das lágrimas que verto.
(Augusto de Lima — 1860-1934. In Poesias: Paisagem nostálgica).

Hoje amigos, amigas, velhos conterrâneos, vou discorrer sobre uma entidade quase mítica, tão antiga quanto Chapéu D’Uvas e vocês certamente deduziram que é o nosso estimado e amado time de futebol de várzea intitulado:
AYMORÉ FUTEBOL CLUBE

Cuja data de fundação se perdeu na noite dos tempos (espero que alguém de boa vontade me informe sobre isto). Ele era o cimento que unia todos os moradores de Chapéu. Motivo de conversas intermináveis nos botequins e vendas de secos e molhados. Era razão e orgulho de nosso povoado. Aymoré, o melhor time da região, incluindo São João da Serra; Ewbank da Câmara; Paula Lima; serranos, da Serra dos Lulu; Valadares; Palmital; Rosário e outros arraiais esquecidos nos meandros de minha memória. Ouso afirmar que Aymoré duelou com o Minas Clube, de Lima Duarte. Lembro-me dos jogos antológicos do Aymoré e da sensacional peleja generalizada entre jogadores do Aymoré e os de Valadares. Tudo começou com um pontapé de Clodoveu em Anísio Vieira e logo todos brigavam contra todos (Bellum omnium contra omnes). Esqueci os nomes dos principais jogadores do Aymoré da minha época (1944-1950). Vou citar aqueles que permaneceram em minhas tão rarefeitas recordações. Vou indicar as posições, mas estou muito confuso quanto aos ocupantes delas — Goleiro: 1. João da Mata (Jerônimo, o reserva). Zagueiros: 2. Jorge Mansur (direito), 3. Chico Sinhana (esquerdo). Linha média: 4. ????? (ala esquerda), 5. Leônidas (centromédio), 6. Ademar (ala direita). Atacantes: 7. Rio Novo (ponta-esquerda), 8. Pancho (meia-esquerda), 9. Riquito (centroavante), 10. ???? (meia-direita) e 11. ???? (ponta direita). Na quero idolatrar a dúvida, apelo para que me digam os nomes que faltam; por favor, preencham as interrogações. Nomes sugeridos para relembrança: Anísio (usava bandana), Aníbal, Becão, Oliveira, Zé Grande, Joaquim Silva, José Flor. O juiz era José Mansur.

Pois bem, os chapeuduvenses após cansativas labutas semanais tirando areia do Rio pro ‘seu’ Henrique Dias, seja trabalhando como roceiros ou retireiros de fazendeiros, ou mesmo na soca de linha, sob comando do feitor, ‘seu’ Cândido; todos, ou quase todos, iam ao campo suar a camisa, jogando bola que naqueles tempos heróicos usava câmara de ar e era costurada por fora.. Os que não jogavam assistiam, papeavam e tomavam uma cachacinha ou conhaque, enquanto xingavam o juiz de ladrão. O campo era situado numa área gentilmente cedida pela família dos Teixeira de Carvalho. Quando não era só treino e havia jogo dito ‘oficial’, a convocação se fazia afixando os nomes dos titulares e reservas no quadro envidraçado, no prédio da venda de José Mansur, onde todos sabiam quem iria jogar e qual era o time Visitante. Num grande quadro-negro, na orla do campo, mais ou menos na altura da linha divisória, ficava os nomes Aymoré X Visitante. Pequenas e pretas placas de metal, numeradas, ficavam amontoadas ao lado de um auxiliar, que as ia substituindo no grande quadro, à medida que surgiam gols. Do outro lado do campo, rancho protegia os assistentes/torcedores dos raios de sol. Curiosamente, não havia torcida feminina: o futebol era machista. Os torcedores cantavam o refrão: Jorge Mansur e Chico Sinhana / Resolveram combinar / não deixar bola passar / pro Aymoré ganhar. Confesso que esqueci (já se passaram 65 anos) com quantos times Aymoré jogou, foram muitos. Um jogo ficou retido na peneira furada do tempo, foi um amistoso entre nosso time e o timaço de Benfica. Nós achávamos que éramos os bons, porém, o de Benfica era muito melhor e levamos uma surra de seis a zero (6 a 0). Foi uma senhora goleada. Vimos que nosso time não era páreo para o de Benfica. E acho que o nome era Benfica mesmo. Nesse fatídico dia, vi Jorge Mansur, um paredão, levar uma canetada e cair sentado, desolado, patético, no gramado. Lamento não me lembrar nitidamente das cores do uniforme do Aymoré, talvez fossem camisas alvinegras e calções brancos, parecendo com o do Tupy, de Juiz de Fora. Nosso clube tinha sede social num salão, ao lado da linha férrea e no mesmo casarão dos mansur, bem em frente à estação ferroviária. Aos domingos e à noite acontecia o arrasta-pé, onde dançávamos ao som da sanfona de oito-baixos de João (José) Lourenço, ou outro sanfoneiro disponível. Tenho saudade de senhora Antônia (falávamos s’Antonha), que me ensinou os primeiros passos, ao som de Asa Branca, de Luís Gonzaga. Também não esqueço de que éramos observados severamente pelos nossos pais que, após as oito horas ou, no máximo, as nove, nos expulsavam para que pudessem se divertir. Claro, eu saía irado da vida, mas esta era lei; a lei dos pais, dos mais fortes, na base do manda quem pode, obedece quem tem juízo, dura lex, sed lex. Tínhamos que deitar cedo, levantar cedo e trabalhar. Nossa vida era cheia de verbos: campear, ordenhar, curar, amansar, cercar, segar plantar, regar, colher etc. Vida na roça não é mole não; são, de fato, 365 dias por ano, de trabalho. Se, acaso, tivéssemos de tirar leite, que era o nosso mister, só descansávamos, aos domingos, após meio-dia. No arraial de Chapéu rotineiramente era assim: domingo, à tarde, futebol; à noitinha, ‘footing’(passeio) ou vaivém, na imensa plataforma da estação do trem de ferro, onde surgiam os namoros e talvez casamentos e; ao escurecer, dança na sede e sala de troféus do Aymoré. Quais eram as meninas, nossas parceiras a bailar? Não sei! Vagamente, lembro-me de Hercília, Selma, Elza, Ivone, Maria José, Aparecida, Imaculada, Lola, Lecy, Letícia ou Lucy, Lurdes, Conceição, Arlete, Salete entre outras. Minha queridinha, mais bonita, brotinho, flor, nada direi pra não encher a sua bola: A dela. Decifra-me ou te devoro...

Por isso, digo, redigo que falar só de futebol é chato; então, peço vênia aos leitores para contar um caso de amores, num paragrafozinho:

Ocorreu séria desavença entre meu tio Jovelino com a Alvir, filho de Aníbal Zacarrão, que nos trouxe grandes tribulações. Antigamente era assim: Se um da família se indispunha com alguém de outra família, todos ficavam ‘de mal’. E deixamos de conversar com o pessoal dos zacarrão. Porém, o fato permitiu nossa versão caipira, e em dose dupla, da história do amor de Romeu e Julieta. As filhas de sô Aníbal eram lindas e ressalto entre elas Atilde (Tidoca) e Edmeia. Tidoca, sim, era linda como a gota de orvalho no inhame. Em nosso lar, meu irmão, Expedito e Agostinho (meu tio), adolescentes plenos de saúde e hormônios à flor da pele, na casa dos 16 e 20 anos, ignorando e independente da inimizade existente entre os minga e os zacarrão, moços e moças se enamoraram. Mas como encontrar e trocar as tais juras de amor? Sem problemas, para quem está apaixonado: O rio Paraibuna passava ao lado de nossa casa, após caprichosa curva e corredeira, sob um pontilhão, costeava os fundos da casa de sô Aníbal. Meu irmão e tio arranjaram uma canoa e por ela se dirigiam até ao fundo do quintal da família dos zacarrão e, com todo respeito, namoravam Atilde (Tidoca) e Edmeia. É... Shakespeare fez escola, nos rincões de Minas gerais. Fim do paragrafinho amoroso.

Voltando ao tema futebol, certa vez, formei um time de garotos: Aymoré-mirim lhe chamei. Esqueci nomes de meus colegas do time, porém, Becão era o bom, mas não era ‘beque’ mas, sim, goleiro e de Valtinho, filho do feitor da soca de linha férrea; este, sim, era 'beque', ou ‘stopper’, zagueiro, uma muralha. Dos jogadores/meninos do time de Paula Lima só restaram os nomes de meu amigo Didinho, Baú e de Vicente (pé torto); dos demais, esqueci inapelavelmente. Formado meu time, à época escrevi ‘Convocação dos moleques’, no quadro de avisos, fomos jogar contra o pessoal de Paula Lima. Ah, meu Deus, que massacre! Levamos histórica surra com o placar de onze a zero (11 a 0). Antes do final do jogo, os adultos invadiram o campo, acabaram com nosso vexame. O jogo terminou no que chamávamos e chamamos ‘pelada’ entre adultos e menores de ambos os povoados. Nosso Aymoré-mirim nasceu e morreu com um único jogo e voltamos às inocentes ‘peladas’, antes dos jogos oficiais do time de adultos. Certa feita fui centroavante e fiz um gol no Becão. Eu era um ‘perna de pau’, muito ruim de bola que, no meu caso, era quadrada. Então, me dediquei às atividades intelectuais, acho que me dei bem; mas, isto é outra estória. Pois é, nos idos de 1944/1946 eu era um menino fraquinho, franzino, miudinho, introspectivo, medroso e qualquer um me punha para correr. [Nesta vida: quantas corridas levei / quanto trabalho passei / quanta rasteira tomei / quantas barreiras pulei].

Nos dias de jogo do Aymoré, colhíamos em nosso imenso laranjal, dúzias de laranjas e enchíamos uma carrocinha com elas e outros produtos agrícolas. Eu, minha irmã, Aura e eventualmente, meu primo Walter Leite, saíamos vendendo aqui e acolá, puxando o carrinho, bem pesado. Está bem nítido em minha caixa de segredos que, ao passar perto da venda dos mansur, nós acelerávamos os passos, porque não queríamos vender para dona Bahia, a matriarca dos mansur. Ela, espertamente, retirava quinze ou mais laranjas (que desapareciam nos enormes bolsos da saia) e pagava como se fosse uma dúzia. A velha senhora, a dama de preto era atraída pelos nhóinc-nhóinc abafado das rodas ferro sobre os pedregulhos e nos fazia parar, autoritária. “Dona Bahia, eu lhe perdoo a esperteza”. Ao chegarmos ao campo de futebol, éramos rodeados por muitos, que chupavam tantas laranjas, quantas queriam; e pagavam menos do que deviam pagar. Impossível para nós, crianças, saber o quanto cobrar de cada um. Aos espertos daquele tempo, dou-lhes minha compreensão, porém, segundo as Sagradas Escrituras, a gente colhe o que semeia ou, em outras palavras: A semeadura é livre, a messe é obrigatória.

Ainda, com relação ao bravo Aymoré, tão bravo quanto os índios que lhe deram o nome (aquele que morde), no início da década de 1950 houve grande desentendimento no clube, porque um jogador (esqueci o nome, talvez sô Vicente Laurindo), reserva, sentiu-se prejudicado, se julgava ser bom o bastante para ser titular, no primeiro time. Como o técnico não concordou com ele, aconteceu o cisma. Desta cisão surgiu outra equipe dissidente: o estrambótico Guará Futebol Clube. Nome de um refrigerante em voga, na época, que tinha o lema: Guará, Guará, Guará, melhor refrescante não há! O primeiro e único presidente foi nada mais, nada menos do que meu pai, João Minga. Papai pediu a José Vieira Tavares cessão de um terreninho para campo do Guará. Tomou uma espinafração do velho Vieira, que o mandou criar juízo e que fosse trabalhar e cuidar da família, em vez de quizilas futebolísticas. Assim, Guará morreu no nascedouro, sem ter onde treinar ou jogar, porque o Aymoré corretamente não lhe emprestou seu campo. Fim do Guará, fim da besteira de uns poucos revoltados. E Aymoré continuou firme e forte, através dos tempos. Muito mais tarde, soube que a família Teixeira lhe tomara o campo. Ah, que maldade! Tempos depois, em acordo, devolveu. Foram informações esparsas, porque há muito eu deixara Chapéu D’Uvas. Caminhos ou descaminhos do destino me levaram em ondas; ora calmas, ora turbulentas, para outras praias e plagas.

Nos embates da vida somos marcados por momentos felizes ou infelizes, que servem para nos dar a sabedoria de que tudo que nos acontece é, em última análise, para nosso bem. No outono da existência, ao olhar para nossas cicatrizes, temos marcas indeléveis, doces recordações, como a estação ferroviária de Chapéu; o Cruzeiro, no alto do morro, com braços abertos, nos convidando à meditação e à oração; a Igreja de são José; as festas ao padroeiro e as missões; o rio Paraibuna (que abraça nossa terra, nossa gente) e seu pontilhão assustador; a represa que levou 40 anos para construção; a via férrea (transportando minério de ferro para Siderúrgica Nacional; composições de gado para o Rio de Janeiro; mercadorias diversas e trens de passageiros); enfim, o povo maravilhoso de Chapéu D’Uvas. Símbolos que não esqueço, porquanto, são ícones de um tempo que se foi... Entre esses marcos, um sobressai mais nítido, mais apaixonante, o brioso Aymoré Futebol Clube, o qual eu elejo, com muito orgulho: Entidade inesquecível.

E vou saindo devagar, devagarzinho, repetindo um trovador anônimo:
Minha gente, eu vou-me embora, / mineiro está me chamando / mineiro tem este jeito /
chama a gente e vai andando. //

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Pendências e desafios aos leitores, internautas:

I) Data da fundação do Aymoré;
II) Nomes dos fundadores;
III) Os 11 titulares, no período de 1947/48/49;
IV) Escudo, dístico ou brasão.

publicado no Benficanet em 11/11/2011
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