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Recordar é Viver!

por Asséde Paiva
(rosarense), bacharel em Direito e Administrador. Autor de Organização de cooperativas de consumo (premiado no IX Congresso Brasileiro de Cooperativismo, em Brasília); Brumas da história do Brasil. RIHGB nº 417, out./dez. 2002; Possessão, São Paulo: Ícone Editora, 1995; O espírito milenar, Goiânia: Editora Paulo de Tarso, s.d. Trabalhou na CSN 35 anos.

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Rio Paraibuna, aquém do fim...

A terra não pertence ao homem; o / homem pertence à terra /
estão ligadas como o sangue que une uma família. / Há uma ligação em tudo. /
O que ocorrer sobre a terra / recairá sobre os filhos da terra. / O homem não tramou
o tecido da vida; / ele é de seus fios. / Tudo o que fizer ao tecido, / fará a si mesmo.
(Chefe Seatle, 1854)


Não precisamos ser Nostradamus, nem profetizarmos o apocalipse, mas é fácil prever o que será de nossa terra após o fim do rio Paraibuna. O assunto é sério. Façamos apenas um exercício de imaginação, relembrando nosso nordeste e suas secas. Se o rio secar ou virar esgoto, o que pode acontecer mais cedo do que pensamos, onde o povo irá captar água para beber? Onde? Sei que cavarão poços artesianos que, um dia, secarão também. As doenças prevalecerão, os viventes dos morros descerão para a planície em busca de água. Hospitais fecharão suas portas, colégios deixarão de existir. Ocorrerão lutas pela posse de um simples veio d'água. Não me venham com desculpas de que outros povos sobrevivem em desertos. Lembro a todos que esses povos têm suas geleiras, que trazem água para rios secos, no degelo. Compare analogicamente o rio com nossa jugular; quando ela é seccionada, esvaímos em sangue... morremos. Quando o rio Paraibuna esvair... não haverá indústria, nem hidroelétrica, nem empregos, nada; adeus represas, açudes, corredeiras... adeus sociedade organizada! O povo finalmente dispersará em nomadismo sem fim, em busca do precioso líquido. Quem puder comprar, comprará, se encontrar para tanto; quem não puder, por ele matará e morrerá.

E antes do fim...
Pois bem, antes que o rio acabe, vou assuntando, pensando e relembrando e pondo no papel algo que embora já tenha abordado, faço-o de novo com minúcias.

O Rio Paraibuna foi parte integrante da vida de minha família, às suas margens vivemos muito anos e fomos felizes (razoavelmente felizes). Lembro-me perfeitamente de que certa feita meu irmão Expedito, então com 14 anos, enamorou-se de Edmeia, e meu tio, Agostinho Minga, este com 16 anos, apaixonou-se por Atilde (Tidoca), filhas de Aníbal Zacarrão. Um italiano irado. À época nossas famílias estavam às turras, por motivos que não interessam aqui relatar, mas estejam certos: havia rabo de saia em evidência. Dizia que meu irmão e meu tio planejaram e executaram o plano de namorar as meninas, filhas de seu Aníbal, às escondidas. Utilizaram-se das águas calmas do Paraibuna, que costeava quase todas as casas do povoado de Chapéu D’Uvas. E assim, pediram emprestada canoa de pessoa amiga, costeavam os fundos de todas as casas do povoado até chegarem ao quintal de seu Anibal, quando embicavam a canoa, saltavam dela e lá, bem aconchegados com as mocinhas, arrulhavam horas a fio até que seu Anibal descobriu, deu zebra, e a dupla (tio e sobrinho) nunca mais tentou o blefe pelos fundos do quintal. Não houve drama shakespeariano tipo Romeu e Julieta tupiniquim, pois não houve sangue a lamentar.

Meu irmão abandonou os estudos por amor juvenil e desestruturou nosso pai e nossa família (foi uma guerra interna familiar). Casou aos dezessete anos com Almerinda Ferreira (filha de José Ferreira e de dona Orzelina); meu tio, Agostinho, fugiu de casa, alistou-se no exército e foi para guerra. Penso que ele achava a guerra mais prazerosa do que a barra pesada de nossa casa. No final, meu tio se deu bem, voltou como herói,com medalha de sangue, condecorações, e trouxe armas com as quais combateu. Imediato,foi rezar no túmulo de Co-lo-di-na (Claudina, o nome certo) e comprou um manto azul estrelado para Nossa Senhora da Assunção, em pagamento de promessa que fez para voltar vivo e são da guerra. Casou com Irene Mateus, moça moradora em Divinésia (ex-Divino de Ubá) e foram felizes, criaram numerosa família; amorosos eles foram.

Quando mudamos para Chapéu D'Uvas (idos de 1941), o rio era caudaloso. Eu sou do tempo das grandes enchentes, da época em que chovia dias e dias, noites, semanas e até meses. Dormíamos ao som do plim-plic da chuva miúda no telhado e amanhecíamos ao chóóóó-toró da chuvarada. Quando da janela de nossa casa, víamos o céu cor de prata, olhávamos lá na serrinha a floresta toda branca, sabíamos que vinha chuva pesada, diluvial, como um lençol que são Pedro desdobrava em nossa direção. Eram água e lamaçal geral, por semanas. E o rio ia a pouco e pouco se avolumando. Desciam touceiras, troncos, caiam barrancos, árvores imensas eram arrancadas da beira rio. Animais, aves domésticas surpreendidas tentavam desesperadamente se safar das águas revoltas. O barulho sob o pontilhão era cavo, profundo, ameaçador e aterrador. Nas enchentes ficávamos olhando as águas represarem os córregos no entorno de nossa casa chegando a menos de 200 metros. Rio e córregos subiam juntos a ponto de quase tocar nas transversais do pontilhão da linha do trem. Quando amanhecia, se víamos os ribeirinhos às margens da via permanente, sabíamos que a inundação prosperava. Ela entrava,sem pedir licença, pelas portas e pelas janelas das choupanas e saía pela outra. Era o rio tentado retomar o que lhe pertence há tempos imemoriais, mas logo suas águas retornavam ao leito, os ribeirinhos voltavam, até que nova enchente os mandar pra beira da linha da estrada de ferro, num eterno sobe e desce ou vai e vem. Sabe de uma coisa, nunca vi um latifundiário dar um palmo de terras altas para os pobres da vila se alojarem em local seguro. Hoje, o rio diminuiu, os invasores consolidaram-se nas suas margens; o rio tornou-se riachão (riacho grande), com tendência a ribeirão ou córrego.

Em Chapéu D’Uvas, ao lado da majestosa casa dos Zacarrão, ficava a casa do Agente da estação, cujo chamávamos chefe, o senhor Valinho. Eu sempre ia à estação ler o seu jornal que vinha à tarde pelo expresso, S1. Seu Valinho brincava: "Não leia o jornal todo, deixe um pouco para mim!" E as filhas dele eram lindas (suspiros). Mais adiante, perto da igreja de são José, morava João da Mata. Eu o cito por causa de episódio marcante em nossa vida. No dia em que mudamos para Chapéu, foi que perdi minha irmã Aparecida. Nosso conhecimento com o pessoal de Chapéu era igual a zero, pois bem, João da Mata passou a noite conosco, no velório e foi com meu pai levar Aparecida ao cemitério de Paula Lima. –– Deus te abençoe, João! Você deve estar no céu. (Para situá-lo no contexto, João era filho de seu Henrique Dias (o homem da areia) e irmão de Toti, Toninho, Riquito, entre outros).

Peço paciência aos amigos leitores e amigas leitoras para mais uma reminiscência do rio. Certa feita, estávamos na estação do trem (sempre estávamos na estação aos domingos, à tarde) quando chegou Geraldo Laurindo, ou seria Jerônimo? Não importa para o causo. O recém-vindo, embora de tez morena, estava pálido e foi nos dizendo, que fora atacado por um caboclo-d'água [um ser mítico que assombra os pescadores e navegantes, chegando mesmo a virar e afundar embarcações], quando estava a pescar de canoa. Eu, pelo menos, acreditei piamente; afinal, tinha meus sete ou nove anos. O incidente teve enorme valor educacional preventivo pra mim, pois, sempre evitava entrar nas águas remansosas do rio Paraibuna, que banhava o sítio que morávamos, o Chalé.Lembrei-me de Geraldo e Jerônimo, porque eles porfiavam pela minha irmã de criação, Mercedes. O último citado ganhou e com ela casou. Nunca mais os vi. E o rio Paraibuna viu tudo isso e muito mais; continuará por enquanto, a banhar com suas águas, pouca água, minguada água as velhas e antigas moradas de Chapéu D’Uvas, no lento desenrolar da vida. Vejam a inconsciência em ação no rio, em Juiz de Fora:

Foto pinçada da internet –– MG TV Panorama
 
  Sem chuva para arrastar a sujeira, Rio Paraibuna acumula lixo. (In Tribuna de Minas)

Primus inter pares, o memorialista Pedro Nava, juiz-forense, nos brindou com seu testemunho sobre o Rio Paraibuna em seu livro Baú de ossos, p.189, 1974, ed. José Olympio/Sabiá, RJ:

".. O rio era tortuoso, barrento, águas propícias ao afogamento de meninos, os suicídios das moças seduzidas e das escravas judiadas do Visconde de Monte Mário. Suas margens e pontes mal assombradas gemiam feio com o vento noturno. Nesse tempo, ele não tinha fundo e levantava-se às vezes qual serpe furiosa, querendo estrangular em seus líquidos anéis a cidade em pânico, que fugia morro Imperador acima [morro do Cristo]. Dom Pedro II caçou sobre suas ondas apaziguadas, de sobrecasaca e cartola, barbas soltas, em pé sobre barca dourada, carregada de puxa-sacos oferecendo prédios, alforriando negros, gritando viva, batendo palmas, todos rindo e dandando pra ganhar baronatos. Depois cortaram as florestas das cabeceiras, roubaram afluente, outros secaram e morreram, o Paraibuna diminuiu, mostrou seu fundo, deixou-se vadear e começou a ser contido nas tentativas de retificação..."

E falando nos mistérios do rio, suas aventuras e desventuras e agonia; na possibilidade dele se tornar esgoto a céu aberto, que uma poetisa, repentista, inspirada, sergipana de quatro costados, cheia de entusiasmo, topou fazer este maravilhoso cordel, que divido com meus leitores.

Rio Paraibuna
Autora: Izabel Nascimento
Aracaju-Sergipe-2013
* Baseado em textos de Asséde Paiva

I
Eu, o Rio Paraibuna
Trago, hoje, uma mensagem
No alto da Mantiqueira
Inicio minha viagem
Venho dar depoimento
Diante deste argumento
Peço respeito e passagem.

II
Na vida qualquer paisagem
É da natureza o brio
Brotei na borda do campo
Enfrentei vapor e frio
Nasci do ventre da Terra
Das chuvas do alto da serra
Cada gota me fez Rio.

III
Das coisas que eu aprecio
E que não vejo iguais
Nos caminhos que percorro
Vejo plantas e animais
Forjo lagoas e açudes
Mostro as minhas virtudes
Em piscinas naturais.

IV
São muitos meus ancestrais
Vivi em diversas culturas
Meu nome traz um destino:
Minha história, aventuras
Rio Paraibuna indica
Que em tupi significa
O rio das Águas Escuras.

V
Trago as assinaturas
De fatos muito importantes
Vi índios Caixinoás
Livres, puros, caminhantes
Faiscadores, garimpeiros
Escravos e fazendeiros
Também vi os bandeirantes.

VI
Vi prisão de assaltantes
Notei os pechelingueiros
Eu vi santos de pau oco
Contrabando dos tropeiros
Chegada da Estrada Real
Eu vi gente assassinada
Vindas dos navios negreiros.

VII
Presenciei os mateiros
Que em nome das plantações
Destruíram as florestas
Em diversas regiões
Após a corrida do ouro
Eu sirvo de bebedouro
Sem fartas inundações.

VIII
Três Pontes e Tabuões
Espírito Santo e Estiva
São córregos tributários
Mas sem muita alternativa
Sem peixes alimentar
E sem mata ciliar
Não há rio que sobreviva.

IX
Estou sem perspectiva
Padecendo a cada hora
Esgoto de metro em metro
Esquecem o que fui outrora
Passam até despercebidos
Os afluentes poluídos
Vindos de Juiz de Fora.

X
Pelas cidades afora
Eu que era um gigante
Vou desde Antônio Carlos
Em Três Rios, a vazante
Progresso foi argumento
Hoje, do assoreamento
Eu sou vítima constante.

XI
A cobiça exorbitante
Põe a vida em retrocesso
Meu percurso foi mudado
Visando obter sucesso
Feita a retificação
Ao show da destruição
A ambição vendeu ingresso.

XII
Tendo por sina o decesso
Sem floresta e sem ramagem
Pra que eu não desapareça
No período de estiagem
Percalços de uma vida
Liberam água retida
De Chapéu D'Uvas, barragem.

XIII
Se o tempo mostrasse a imagem
E ouvisse a minha voz
Talvez tivesse optado
Por não ser meu porta-voz
Uma vez que não aprecio
Ver que eu deixo de ser Rio
Antes de chegar à foz.

XIV
Sinto uma saudade atroz
Da Fazenda Sesmaria
Do casal joão-de-barro
Na figueira residia
Das pedras no pontilhão
Nunca tive a impressão
Que o tempo transformaria.

XV
Acabou-se a pescaria
Afastaram-se os animais
Não existe evolução
Pra registrar nos anais
Sei que meu fim não demora
As Iaras foram embora
Não retornarão jamais!
  XVI
Os problemas são reais
É grande a poluição
O meu bramir silencia
De dor e indignação
Em crise existencial
Não sei se sou, afinal
Rio, riacho, riachão.

XVII
Miasma, emanação
Preciso ser resgatado
Meu passado é glorioso
Meu futuro é arriscado
Sonho que ainda não morreu
Chapéu D'Uvas, como eu
É sombra de um passado.

XVIII
Preciso ser transformado
Ver preenchida a lacuna
Haver ações efetivas
Nas ruas ou na tribuna
Da nascente até a foz
Escutem a minha voz:
Salvem o Rio Paraibuna!

XIX
Com mensagem oportuna
Venho dizer minha idade
Eu tenho milhões de anos
E uma oportunidade:
Continuar meu percurso
Prosseguir sendo recurso
E energia pra cidade.

XX
Urge a necessidade
Eis que é chegada a hora
De salvar um curso d'água
Que agoniza e que chora
É um dilema brasileiro
Tanto no Rio de Janeiro
Quanto em Juiz de fora.

XXI
Sou testemunha da aurora
Da Natureza, regaço
Trago na nascente, história
Levo pra foz, o cansaço
Preciso de solução
Extinguir poluição
Da morte, anular o traço.

XXII
Preservar o meu espaço
Garantindo, assim, aporte
Eu que durante a infância
Sempre me mantive forte
Hoje, em decrepitude
Luto pela plenitude
Não quero chegar à morte.

XXIII
Até quando ter a sorte
Por principal aliada?
Protelar constantemente
Providência a ser tomada?!
Até quando a quietude
E só tomar uma atitude
Quando não restar mais nada?!

XXIV
No meio dessa jornada
Minha angústia é tamanha
Recuso-me a ser discurso
Só em tempo de campanha
Meu diagnóstico é crítico
Não quero ser, de político
Instrumento de barganha.

XXV
Eu sou da floresta, entranha
Sou cultura, identidade
Sou paisagem, sou lazer
História e mobilidade
Sou irrigação e vida
Fauna, flora e guarida
Sou sustentabilidade.

XXVI
Minha triste realidade
Sei que não posso negar
Mas não largo a esperança
De vê-la se transformar
Eu confio na profecia
Ver o menino que, um dia
Eu ensinei a pescar.

XXVII
Se eu pudesse permutar
Passasse a ser o menino
Seja por sonho ou vontade
Talvez obra do Divino
Eu teria a convicção
Paraibuna, por paixão
Chapéu D'Uvas, meu destino.

XXVIII
No entanto, o pequenino
Tomaria como afronta
Ser bem da humanidade
Enquanto ela o desaponta
Viveria angustiado
Ver tanto tempo passado
E sem ter se dado conta.

XXIX
Esta História remonta
Que o Planeta terá fim
Estão na Vida as perguntas
Em nossas mãos, estopim
Nesta ação tão perigosa
"A morte de uma rosa
Perturbará o jardim.
"

XXX
Todos precisam, enfim
Evitar a desventura
Pois a morte de um Rio
Não é fato porventura
Todos podem ter certeza
Quem agride a Natureza
Cava a própria sepultura.
Texto publicado no Benficanet em 12/03/2013
Comentários:

Asséde Paiva -  Volta Redonda - RJ - 22/09/2014
Imenso prazer em ler seu texto, cara Izabel. Por favor, reenvie-me seu texto porque devo ter deletado o anterior sem ler. O blog Benficanet publica tudo que escrevo. São amigos meus. Paz e saúde.

Izabel Nascimento - Aracaju - SE - 22/09/2014
Asséde... ter versos meus bem próximo a textos escritos por você é algo que me deixa feliz. Obrigada pela divulgação e valorização da Literatura de Cordel. Enviei recentemente um e-mail para você onde retrato as semelhanças que encontrei ao estudar o curso dos rios que você tanto ama e que contribui com muitos que amam também. Agradeço por suas palavras... Confesso que não conhecia a expressão \"de quatro costados\"... Gostei bastante... rsrsrs.... Seria a tradução de uma \"Sergipana retada\" ou \"Virada no raio\" como se diz por aqui. Quão grande é a nossa riqueza cultural! Abraços!!!

José Maria Tomaz - Benfica - Juiz de Fora - 16/06/2014

Maravilhosa, fatos que muitos desconheciam, parabéns.
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