por Asséde Paiva
(rosarense), bacharel em Direito e Administrador. Autor de Organização de cooperativas de consumo (premiado no IX Congresso Brasileiro de Cooperativismo, em Brasília); Brumas da história do Brasil. RIHGB nº 417, out./dez. 2002; Possessão, São Paulo: Ícone Editora, 1995; O espírito milenar, Goiânia: Editora Paulo de Tarso, s.d. Trabalhou na CSN 35 anos.

 
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ROSÁRIO DE MINAS
Feito no dia das mães e a elas dedicado,
pois nos trouxeram ao mundo, nos embalaram
e amaram incondicionalmente.
  

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Diálogo surreal:

Os três naquele velho automóvel passavam por sinuosa estrada vicinal. Falavam sobre velhos tempos, parentes distantes, lugarejos abandonados e silenciavam quanto ao destino final, porque não sabiam o resultado.

Alguém os esperava...

“Eles vêm, estão bem próximos acabaram de subir o Morro Alto. Ele, a irmã e a prima. Coisa estranha, ao longo de anos comparecera a festas em Rosário e passaram diretos por mim. Às vezes, sem dar uma simples olhada seguiam adiante, para a casa de nossa mãe. Hoje não vai ser assim: intimei-os a me visitar, afinal, tenho meus poderes. Já os esperei demais”.

Não demorou nada e um carro parou num declive suave, que dava início à rua Principal, daquele povoado. Saltaram um homem e duas mulheres, subiram devagar as escadinhas até o topo e visualizaram o portão de ferro entreaberto; a porta do templo fechada a cadeado.

— Perdemos a viagem. Não podemos visitar a ermida — disse o homem de cabelos brancos.

Materializou-se um senhor ainda novo, de barba rala, ar bondoso; dele emanava aura de santidade. Trazia uma chave muito antiga. Convidou-os com voz suave:

— Entrem comigo, eu os esperava há muito...sabia que viriam algum dia.

E, ao sinal afirmativo dos recém-vindos, dirigiu-se ao templo, abrindo as bandeiras de par a par. A luz do Sol entrou com eles, e outra Luz os envolveu em atmosfera devocional, daí resultou conversa extraordinária, a nível telepático:

— Até que enfim! Vocês, sempre de passagem, retos a casa de Maria, no grande templo. Nesta capelinha abandonada, esquecida, nenhum dos três me visitou jamais, pensem bem poderia ser uma manjedoura. Gostam do que veem? tudo muito pobre? sem ícones?

— Sim — disse o viajante. — Viemos de longe, acho estarmos pagando a prestação duma dívida enorme.

— Talvez o morador daqui tenha zelado por vocês e pelas suas famílias, mesmo que não soubessem. É possível, é possível, quem sabe?

— Será que teremos perdão por nossas faltas, e pela ingratidão?!

— Acho que perdoados estão, mas pensem em alguém sempre os ajudando a vencer os obstáculos ao longo da estrada da vida.

— E foram grandes nossos problemas; não os superaríamos sem auxílio poderoso, porém vejo tantos que parecem bonançosos desde o dia em que nasceram... Como dizem por aí, sempre chovendo na horta deles.

— Quem está na casa sabe onde tem goteira, assim dizem os antigos. As aparências enganam. Muitos sofrem com um sorriso nos lábios, só para se mostrarem felizes. Por dentro, no fundo da alma, estão desesperados.

— Concordo com o que diz: eu entre outros problemas tenho uma dúvida atroz: por que não consigo aceitar que sou imagem e semelhança do Criador.

— Os desígnios do Pai são inescrutáveis. Aceitando ou não a semelhança, ela está gravada no Livro sagrado, é uma realidade da vida que independe de seu querer. Cada qual no seu canto sofre seu tanto. Sua irmã e prima, ao seu lado, têm seus sofrimentos íntimos terríveis. Sei o que se passa e se passou com elas. Contudo, nunca lhes faltei com meu apoio. Sua mãe, uma doce pessoa, lhe disse certa feita que ao entrar pela vez primeira em uma igreja pode fazer três pedidos. Aproveite o momento: quais são eles?

— Desculpe-me, nada vou pedir... Tudo o que eu queria fazer já fiz. Tive vitórias e derrotas, agora, meu horizonte é curto, só desejo uma boa hora de...

— Pare! Sua hora não chegou. Você tem ainda muita estrada pela frente.

— Quanto tempo, senhor? Já passei de oitenta.

— Oitenta não é nada. Que é um século? Que é um milênio? Veja bem, anote aí: há quem tenha mais de dois mil anos.

— Oitenta para mim está pesando...

— Então, está no local certo. Aqui, os cansados e oprimidos têm consolação.

— Então é fim de nossa viagem? ou seguimos adiante?

— Sim, claro, vão à frente, pois atrás vem gente. Cada qual tem sua hora. Continuem seu destino, visitem a Senhora do Rosário. Eu sei que gostam dela, e ela ama a todos. Vou com vocês e os protegerei como sempre protegi...

As mulheres que acompanhavam o viajor não desconfiaram, pois achavam que ele mexia os lábios em oração.

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E, os viajores partiram comovidos, levando três flores colhidas no jardim da capelinha.

Ao chegaram ao largo da Matriz, foram à igreja. O homem de cabelos de neve era o mais contrito, quedou-se junto à porta e solfejou um hino em homenagem à mãe universal:

QUEM PODERÁ?

Quem poderá definir o encanto
Que há no espelho do teu olhar,
Ó mãe de Deus, eu te amo tanto,
E cada vez mais te quero amar.


Teu rosto é sol que brilhando aquece
As horas tristes da solidão,
Ao teu sorriso de mãe parece
Abrir-se em flor nosso coração.

Tu és a mais santa das mulheres,
Tu és do céu a mais bela flor,
Faze de nós o que bem quiseres,
Somos escravos do teu amor.

Teu belo nome, nome divino,
Parece um sonho feito de luz.
Abre o teu caminho, e o teu destino
Há de levar-nos até Jesus.

Findo o hino de louvor, murmurou emocionado:
— Mãe! Estou a seu dispor.
  Faça de mim o que bem quiser. Eu cumpri minha missão...

...então ficou pensando: eu não queria vir; agora que cheguei, quero ficar... e não posso... Vim para o mundo sem saber o porquê e dele saio como o vento a toa, que nunca sabe pra onde vai soprando...

Mãe Santíssima rogai por nós!

E os viajantes se foram abençoados pela Mãe de Deus.

 

Texto publicado no Benficanet em 12/05/2015

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