por Asséde Paiva
(rosarense), bacharel em Direito e Administrador. Autor de Organização de cooperativas de consumo (premiado no IX Congresso Brasileiro de Cooperativismo, em Brasília); Brumas da história do Brasil. RIHGB nº 417, out./dez. 2002; Possessão, São Paulo: Ícone Editora, 1995; O espírito milenar, Goiânia: Editora Paulo de Tarso, s.d. Trabalhou na CSN 35 anos.

 
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Terror em Paula Lima e Chapéu D’Uvas
Pedibus timor addidit alas "O medo acrescentou-lhe asas aos pés".
Virgílio (70-19 a.C.), in Eneida VIII

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Era em noite fria do mês de maio de... Há quase setenta anos. Tempos de atraso. Sim, de atraso. Imaginem amigos e amigas que o asfalto terminava em Benfica, bairro de Juiz de Fora. A estrada para Belo Horizonte (BH) era macadamizada e demorava-se até 12 horas de JF a BH. E no arraial de Paula Lima, onde se deu a estória, havia só um automóvel; ônibus não era ônibus, era perua ou jardineira. Estou falando assim para posicionar os leitores no tempo e espaço.O autor destas mal traçadas linhas morava então em Chapéu D’Uvas, outro lugarejo distante de Paula Lima mais ou menos sete quilômetros. Deu-se, como se dizia em maio, "mês de Maria", o fato de que um menino recém-saído das calças curtas, já usando calças compridas, devidamente autorizado pelo pai, foi assistir ao encerramento da festa de Nossa Senhora de Conceição. Nosso 'herói' ficou até o fim, quando queimaram os últimos fogos soltaram-se as últimas bombas e desenrolaram o ícone de Nossa Senhora sob chuva de lágrimas de prata e palmas, era mais de dez horas da noite. O menino pretendia ficar, ou melhor, dormir, na casa do amigo de infância Jair (Didinho), filho do seu Nenzinho; de repente se viu só, o amiguinho se fora antes para a cama e não o convidara. Pronto! E agora, o que fazer? A outra opção seria pedir pouso na casa de seu tio Joaquim, casado com Olívia. Nosso ‘herói’ sabia que a casa do seu tio Joaquim estava lotada com a família do sogro, que viera de longe assistir à festa. Então, sem saída pôs o pé na estrada, rumo ao arraial de Chapéu, seu lar. No fim da rua (em Paula Lima), ou melhor, na estrada de rodagem, ficava a casa de Totonho Silva e bifurcação da estrada. O jovenzinho lá chegou, parou para pensar qual caminho tomar. Pela esquerda, o macadame, mas aumentava muito a distância. Pela direita, o velho pedaço do Caminho Novo, estrada de bandeirantes. Era andar morro acima e depois, claro, morro abaixo. A noite de lua cheia ajudava o caminhar na senda estreita.Chapéu D’Uvas ficava doutro lado do monte, iniciando no sopé do mesmo. O garoto tomou esse caminho sobe-desce, por ser mais perto, um atalho, como se diz. Ambos os caminhos tinham má fama de serem mal assombrados; então, melhor seria escolher o atalho, encolhia o perigo. Contavam que na virada do morro, no valo, onde um homem fora morto por demanda de terras, seu espírito vigiava na porteira. Para que tem doze ou treze anos tudo é verdade: almas penadas, mula sem cabeça, lobisomem, saci etc. E o garoto corajosamente subiu a estreita trilha. “Seja o que Deus quiser!” Até no tope tudo bem, mas quando virou o alto e começou a descer, ao passar por uma gruta ouviu gemidos, gritos agourentos kikkikki. Sua pele enrijeceu, seus cabelos ouriçaram e o coração disparou. Acelerou. E porteira apareceu, semicerrada; passou como foguete. O gemido mais nítido. Ele absolutamente agoniado/aterrorizado, sentiu frio percorrer o espinhaço. O pseudofantasma nada mais era (será que era?) uma coruja no batente da porteira. O flap-flap das asas fê-lo sentir a pele enrugar-se na testa, os pelos arrepiaram. Mas ele seguiu morro abaixo sem olhar parar trás; afinal, poderia ter o avantesma atrás dele.

No sopé, do outro lado do monte, ficava a fazenda centenária 'dos Teixeira', (Rocinha do Engenho). Mais duas casas: uma de agricultores japoneses; outra, de alguém que tinha uma cachorra tão brava que era chamada onça. Pois bem, tal cachorra que deveria estar no sono dos justos, acordou e desceu da sua casa com latidos ferozes até ao garoto que, gelado de terror, parou, empedrou.  A cachorra era, por assim dizer, 'ocão'. Tão veloz que deslizou ao parar próximo do garoto e não o mordeu. Por que não? Incrível, talvez ela com seu cérebro cachorral pensava que estava diante de um poste, porque o menino estava pétreo pelo medo. Doía os ossos de pavor. Onça, a cadela, rodeou-o duas vezes, rosnou, rosnou e voltou para o covil. Só depois de algum tempo o garoto ousou sair da letargia e apressar novamente, rua afora. Estava na via que levava à estação de trem. Na estação, quebrou a esquina à direita e lembrou que o trecho seguinte, paralelo à estrada de ferro, tinha seus fantasmas: o cemitério particular dos Vieira Tavares, ao lado da igreja de são José, e o fantasma do guarda-freio. O menino assistira, há dois anos, um manobreiro ser atropelado por composição de vagões de carga, e tivera pernas cortadas na altura dos fêmures. O jovem vira o acontecido, e os gritos do homem ficaram eternos gravados nos seus ouvidos, e a sangueira também. O menino tinha que passar perto da caixa d’água onde se dera o fato (verídico) fatal. Lá também corria a lenda de que o guarda-freio à noite gritava “socorro!”Em outra corrida desabalada, e com olhos fixos no chão passou pela travessia, outro terror menor: a lenda da porca e seus dez leitõezinhos que atravessavam a via férrea pra lá e pra cá, sem que fossem atropelados jamais. Finalmente,ele entrou em casa sem maior dano, além do susto e palma de língua pra fora. Enfim, foram experiências traumáticas nunca esquecidas.Se você não acredita passe por lá à meia-noite. Refaça o caminho, nada mudou. Eu hein!

Texto publicado no Benficanet em 02/06/2014

Comentários:

Silvania Aparecida Ribeiro - Chapéu D'Uvas - 03/06/2014
Acho que este garoto era você.
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