por Asséde Paiva
(rosarense), bacharel em Direito e Administrador. Autor de Organização de cooperativas de consumo (premiado no IX Congresso Brasileiro de Cooperativismo, em Brasília); Brumas da história do Brasil. RIHGB nº 417, out./dez. 2002; Possessão, São Paulo: Ícone Editora, 1995; O espírito milenar, Goiânia: Editora Paulo de Tarso, s.d. Trabalhou na CSN 35 anos.

 
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CONFITEOR (EU CONFESSO)
Talvez algum dia sinta prazer em recordar estas vicissitudes também. Virgílio (70-19 a.C. Eneida, I).

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Sei não... chegando a uma idade provecta a gente começa a pensar, pensar, recordar o passado e ter saudade e tristeza, porque como disse o poeta Ninguém passa pela vida em brancas nuvens. Hoje estou com vontade escrever sobre o meu passado escolar e outras coisas apenas para dourar a pílula DA MINHA VIDA, confessar como dizem por aí.

Nasci em família muito pobre e meu pai era roceiro, enchadeiro, lavrador, isto é trabalhava de sol a sol para os fazendeiros locais, em Rosário de Minas. Rosário pobre lugarejo, abandonado por tudo e por todos, tem tudo a ver com minha vida. À noite, para melhorar a renda familiar, papai era barbeiro. Lembro-me da luz de carbureto dançando nas paredes nuas, da fazenda velha, de minha bisavó. Fazenda de nome Morro Alto, da Dona, se não me falha a memória. Certa feita cortei com a navalha do papai madeira e foi um “Deus nos acuda!” para reparar os dentes que fiz na navalha Solingem. Quantos anos eu tinha? Talvez três ou quatro anos. Lembro-me, ainda, dos tiros que papai deu nos gatos, porque comiam seu queijo, um rendeiro pequenino. Pobres gatinhos... Houve grande desavença entre papai e Chico Quirino. Papai deu-lhe uma surra porque invadiu nossa casa; a seguir, mudou-se para Paula Lima, para uma casa abandonada há muitos anos e havia nela milhões de pulgas, que nos transmitiram doenças. Perdi quatro irmãos em pouco mais de um mês.

Assim que chegamos a Paula Lima, meu pai matriculou-me na escola de dona Laerte, grande mestra diziam. Imaginem que eu, bicho do mato, levei tremendo susto ao entrar pela primeira vez numa sala de aula com mais de quarenta crianças em algazarra e azucrinado meus ouvidos. Até então, eu só conhecera meus parentes, em Rosário. O resultado daquele primeiro dia de aula foi péssimo e me traumatizou a vida inteira. Tá gravado a ferro e fogo na minha cabeça. Dona Laerte, a professora pôs no quadro negro o a, b, c e disse para copiarmos. Eu nem sabia o que era abc? Não conhecia lápis, nem papel. Olhei ressabiado para o coleguinha ao lado e vi que ele copiava o que estava no quadro-negro; então, tentei imitá-lo e tracei a letra a. Sabe qual foi meu a? Foi mais ou menos parecido com um g (gê) e não fiz mais nada. Acho que chore naquele dia. Não me lembro de voltar naquela sala, pois, como disse acima adoeci com meus irmãos. Ainda em recuperação mudamos para outro arraial de nome Chapéu D’Uvas. Papai me pôs na escola particular que funcionava na velha padaria da família Zacarrão. A professora era dona Terezinha (não falávamos tia como hoje). Nessa escola tive um segundo trauma, que relato agora: na hora do recreio os meninos jogavam com uma bola de meia, eu entrei na brincadeira e, alguém chutou a bola mais forte, a qual caiu num vassoural.Procuram daqui, procuram dali, fui o primeiro a vê-la e apontando disse: ela está perto daquele papeli. Veja, falei papeli. Um garoto corrigiu-me no ato: “É papel, capiau!” Humilhado retirei-me da brincadeira. Pois é, foi um bem que ele me fez. Eu, criança, jurei que aprenderia rapidamente o abc para falar bem e escrever melhor. De fato, tornei-me o primeiro aluno da classe e logo tirei o primeiro primário. Não sei por que nossa professora foi embora e passei a estudar com dona Nieta (Antonieta Lisboa). Inesquecível Nieta... Com ela terminei o segundo primário sabendo ler e escrever bem. O terceiro primário foi feito na Escola Publica Primária de Chapéu D’Uvas com a professora Hercília Dagmar Nogueira. Em 1944 fui diplomado no terceiro ano, com nota dez. Naqueles tempos heróicos, na roça, só se estudava até o terceiro ano. Bastava fazer uma redação, um ditado; saber somar, subtrair, multiplicar e dividir. Estava-se apto para seguir à frente. Na roça é o fim, agora é só trabalhar.

Papai achou que eu tinha potencial, merecia coisa melhor do que ele teve. Para continuar os estudos, havia necessidade de ir morar ou pagar pensão em Juiz de Fora. Sob desculpa/pretexto de que eu era muito novo (acho que, na verdade, não havia dinheiro) fiquei parado em casa por um ano. Assim, 1945 foi ano perdido e esperando que eu amadurecesse para enfrentar os riscos da cidade grande. Em 1946, fui “fazer” o quarto primário no Grupo Escolar Antônio Carlos, em Mariano Procópio, subúrbio (hoje bairro) de Juiz de Fora. Minha professorinha chamava-se Rosa Ladeira Halfeld. Acho que era substituta da titular. Na classe sofri meu primeiro bullyng (assim chamam hoje o que chamávamos antigamente mexer com alguém ou bulir com). O meu algoz se chamava Sigemitson, ou algo parecido. Apesar dele, “formei-me” mais uma vez, agora no quarto primário (sempre diplomado e pouco saber). Neste período, fiquei em duas casas: na primeira quase me mataram de fome, pois escondiam comida de mim; na segunda, fiquei na casa da dona Mariana, que tinha um filho de nome Oliveira. Ela tinha um ciúme danado do filho, por causa de sua namorada. A pensão de dona Mariana era um inferno por causa das brigas dela com o filho. O neto dela, o Batista me provocava sem parar e fazia meu infernozinho particular. Esse Batista era um demônio que não me dava sossego para estudar. Ele foi meu segundo algoz. Adicionalmente, sofri na casa de madeira, de dona Mariana, com os quatro Ps: pulga, percevejo, pernilongo e mais bicho de pé, porque a veneranda senhora Mariana criava porcos nos fundos da casa de pensão. Meu Deus! Sobrevivi apesar de tanta tormenta. Como é longo o caminho de uma vida... Uma vez “formado” no curso primário, fui matriculado no Granbery para fazer o Admissão ao ginásio, uma espécie de cursinho preparatório de dois meses (hoje extinto). Pois bem, lá no Granbery mais um trauma, porque o professor nelson (o n minúsculo é minha desforra), apontou-me o dedo em riste e vaticinou: “você vai ser reprovado!” E fui reprovado, então. E veio mais bullyng (o terceiro). Um garoto da vizinhança me perseguia naquelas ruas laterais ao Granbery. Para não apanhar dele, dava longas voltas. Um dia este covarde me pegou e me deu surra.

Ah, alguns professores de antanho eram sádicos, em vez de ajudar, me aconselhar, foram cruéis. Um “professor” Afrânio (será que esse imbecil não tinha coração?), na minha segunda tentativa de admissão ao ginásio decretou que eu seria reprovado e fui mesmo. Mais uma vez, fui derrotado na tentativa de ser Granberyense. Como castigo pela reprovação retornei a casa, na roça, para trabalhar na enxada, como sempre. Hoje em dia, falam tanto em bullying como se fosse algo da modernidade. Nada disso! É roupagem nova em defunto velho; sofri bullying  em todas as escolas, grupos e colégios que estudei: chicletes no meu cabelo; pó de mico nas costas; tapas na cabeça; papéis na nuca, chutes, beliscões, gelo, telefones nas orelhas etc. Deram-me apelidos vexaminosos que até hoje me machucam; um deles, o menos execrável: Chulé. Imagine os outros. O fato incontroverso é que crianças — sem noção exata dos males que causam — são naturalmente perversas, cruéis, como são os humanos em geral. Hobbes prolatou: Homo homini lupo (O homem é o lobo do homem). Em 1947/1948, voltei ao Granbery, desta feita para fazer o quinto primário o ano inteiro. Hoje eu seria considerado aluno atrasado, digamos meio burro, porque estava com 14 anos e não tinha sequer o primário. Fiz o quinto primário com as professoras Marta Valtenberg (português e ciências) e Hermínia Coutinho (aritmética), ambas doces pessoas. A Diretora era Carolina Coelho, baixa, enérgica, bondosa. Continuei no Instituto Granbery e afirmo com total convicção ser um dos melhores colégios do país naquele tempo. E “formei” mais uma vez, agora no quarto ginasial. Aprendi muito no Granbery. Depois, em Volta Redonda, estudei na Escola Técnica Pandiá Calógeras (ETPC), um templo de referência em educação, onde fiz o curso Técnico de Metalurgia. Fiz também curso superior, mas não me interesso falar dele. Embora seja Bacharel em Direito, a profissão de advogado nunca me fascinou.

Sou Administrador de Empresas com imenso prazer. E fui considerado um dos melhores administradores da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), onde trabalhei 35 anos, com muito orgulho. Fui Presidente de uma de suas empresas controladas.

Voltando ao “O Granbery” digo que ele foi o oásis da minha vida. No Granbery fiquei cinco anos, só cinco. Que pena! Eu gostava demais do Colégio. Vou relatar coisas que ainda estão vivas em minha mente antes que as brumas desçam e apaguem tudo, e as névoas estão aí; ai de mim! Eu não tive oportunidade de continuar a estudar no Granbery; fatores adversos mudaram minha vida. Vou sintetizar na medida do possível, se eu for repetitivo me perdoem: é a idade. Em menos de um dia esqueço. Preciso escrever, preciso desabafar. O pavilhão do curso primário do Granbery era separado do edifício dos ginasianos por um a área de lazer, onde ponteavam o botequim (do senhor Júlio) e uma árvore. Tenho uma foto sob ela. Digo que nessa época eu já sofria com angústias do futuro e perguntas me ocorriam: “O que será de mim? Quem sou eu? Vale a pena viver?” Todavia, foi um período calmo e feliz no Granbery. Interno no Granbery, fiquei no pavilhão dos menores sob tutela de dona Marta Valtenberg. No meu quarto havia um menino de Uberaba; até hoje falamos por telefone. Arnaldo se chamava e gostava de nos chicotear com toalha molhada; ‘brincadeira’ de mau gosto de garotos. Esqueci-me de todos os outros colegas de quarto, exceto Arnaldo. Havia um homem mau: Kilzo, inspetor de dormitório.

Uma vez aprovado, no quinto primário, fui matriculado no primeiro ginasial. Nesse tempo, fui transferido para o dormitório dos alunos médios. Dos meus colegas de quarto só me lembro de um de Montes Claros, acho que se chamava Ernani ou Pacífico é o que vem em minha mente. No segundo ginasial, as finanças, lá em casa, iam de mal a pior. Meu pai me tirou do internato, me pôs no externato. Fui morar na pensão Assis, na esquina de Batista de Oliveira com Getúlio Vargas. O prédio da pensão formava um ângulo cujo vértice era e é tangenciado pela rua Marechal. Na pensão fiz amigos fazendeiros de Rosário de Minas. Fiquei perdidamente apaixonado pela irmã deles, paixão de adolescente. Não falarei o nome dela por respeito ao passado é melhor pôr uma pedra em cima. Fui correspondido um ou dois meses. Depois, ela me desprezou. Bom pra mim, há males que vêm pra bem. Enchi-me de brios, adotei Hei de vencer! Como lema. Nesse período, movido pela dor de cotovelo, caí na farra e nos vícios: fumar e beber. Aos trancos e barrancos, terminei o segundo ginásio. As finanças do pai diminuindo. Mudei de pensão. A pensão Assis era cara, fui para outra, na parte baixa da rua Halfeld, pensão Halfeld. No meu quarto, Sebastião Senedesi, estudava no Colégio São José, gostava de declamar O noivado do sepulcro: “Vai alta lua na mansão da morte, / já meia-noite com vagar soou, / que paz tranquila dos vaivens da sorte / só tem descanso quem ali baixou!” Lembro-me do Freitas, do Henrique e Manoel. Sei que os donos da pensão tinham uma filha morena, muito bonita que gostava de jogar buraco. Aprendi e jogava dia e noite (mais um vício). Ela comprava caixa com duzentos cigarros (marca Continental) e os punha sobre a mesa, onde todos nós, jogadores, fumávamos. Pois é, meu pai me pegou algumas vezes em pleno jogo e me ameaçou abandonar, ‘me deixar pra lá’ e me chamou de moleque. Doeu, mas continuei jogando e estudando pouco; tomando porres de vez em quando. Quase fui reprovado no terceiro ginasial. Aliás, nessa época a professora de inglês, Elsie me humilhava prazerosamente. Sempre achava jeito de me dar zero. Ziro! Falava em alto e bom som, em inglês, com ironia e raiva e ainda escrevia no quadro-negro, para que todos lessem: zirô. Ela me prejudicou não só naquele ano; sim, a vida toda, porque tomei ojeriza à língua inglesa e como me fez falta! Inglês tornou-se, de fato, a língua franca, universal, apesar dos esperantistas dizerem o contrário. Que essa mestra em inglês esteja tocando harpa no céu, se merecer. O professor de História Sagrada também não me queria bem, acho que seu nome era Stearle. Se pudesse ele me expulsaria. Certa feita, levou-me ao Reitor, Mr. Moore, que relevou, porque eu tinha boas notas, mas gritou pelos corredores “esse desgraçado”. Tudo foi um mal-entendido, não posso acreditar que o pregador da palavra de Deus fosse intrinsecamente má pessoa. Ele era bom... Das profundezas abissais de minha alma, aflora o nome do professor Afrânio, aquele que me declarou incompetente, disse-o acima, se me fez muito mal, eu lhe perdoo.

O Granbery, no geral, tinha bons mestres, contudo, tinha pontas de aterro também. Fui punido muitas vezes (algumas, totalmente inocente), por motivos vários, indo estudar, como castigo, aos domingos, na famosa sala 10.

Meu pai degringolou definitivamente, em 1951. Caiu na “gandaia”, foi muito triste o fim da união de família. Ele passou a viajar, farrear, beber e jogar e, nós, na pior, ficamos. Trágico o nosso pesadelo familiar. Então, no quarto ginasial, em 1952, já sem o apoio do pai passei a depender da caridade de parentes. Eis os que me ajudaram: tio Joaquim Almeida, cc Maria Celeste; Ana (Donana), cc Sebastião Theodoro; Teresa Almeida, cc Sebastião de Paiva Leite; minha irmã, Noeme, cc com Paulo E. da Silva. Todos foram bons para mim, me deram comida e cama. De casa em casa, ao sabor do vento, tirei o sonhado quarto ginasial “O quê fazer?” Eu me indagava “de quê vou viver? Que solidão!” Terrível sensação de exclusão. Confesso, com tristeza, que não fiz amigos enquanto estudante e foram 16 anos. Colegas de classe, sim, e alguns ‘buliam’ comigo; outros me eram indiferentes e, a maioria me fazia invisível. E eu, como nau sem rumo deambulava. Tio Joaquim, irmão de meu pai, me estendeu a mão e me convidou para trabalhar com ele como Caixeiro de armazém. Você sabe que é ser caixeiro/balconista na roça? Com todo respeito ao sofrido povo roceiro, é viver com analfabetos, servir cachaça, fumo, pesar mercadorias, matar porcos aos sábados e ouvir extensas estórias. Eu, com ginasial completo (quase doutor, na época), perdi a autoestima, desprezei a mim mesmo, afundei. Passei a falar errado deliberadamente, tomar cachaça e farrear também. Repousava a barriga no balcão, frequentava calangos e batuques dos negros (hoje afro-descendentes). Fumava as marcas Astória, Liberty curto e ovais e Saratoga. Enfim, eu não era nada de nada. Fundo do poço, não é?

Um dia, inconformado cravei minhas iniciais no portal da venda do tio, datei 1954, chamei minha tia e disse pra ela “Tia não voltarei, se não vencer na vida” Parti. Graças a Deus, e a amigos certos nas horas incertas, e esforços ingentes, venci. Vinte e cinco (25) anos depois voltei, e minha tia levou-me ao portal onde inscrevera minhas iniciais e data. Relembrou-me o que eu havia dito.

Passei tempos difíceis, sim, mas no fim deu tudo certo, estava escrito. Não fui derrotado pela vida. Ad astra per áspera [Por caminhos ásperos se vai aos astros]. Eu tive o que mereci... Será?

Finalizando, tive grande, imensa insegurança, no passado, e hoje... Meu filho primogênito, Assedinho é meu apoio, sempre presente, é um doce amigo, um filho cuidadoso com a gente. No quinto primário, tive um colega chamado Alcione, gostei muito do nome e dei este nome ao meu segundo filho, Alcione. Esse é doutor em Ciências da Informação, em Viçosa. Vem sempre que pode aqui em nossa casa e nos ama. Nota 10 para meus filhos. Minha mulher, Cecy, merece referência em destaque por ter me aguentado até hoje. Estamos casados há tantos anos que perdi a contagem do tempo. 

Texto publicado no Benficanet em 30/05/2014

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