por Asséde Paiva
(rosarense), bacharel em Direito e Administrador. Autor de Organização de cooperativas de consumo (premiado no IX Congresso Brasileiro de Cooperativismo, em Brasília); Brumas da história do Brasil. RIHGB nº 417, out./dez. 2002; Possessão, São Paulo: Ícone Editora, 1995; O espírito milenar, Goiânia: Editora Paulo de Tarso, s.d. Trabalhou na CSN 35 anos.

 
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ZUMBI DE PAULA LIMA
  

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Anoitecia. Chovia torrencialmente...

Ninguém sabia o nome certo do homem e ele jamais o dizia. Chamavam-no Zumbi. Simples, ingênuo, bom e sem história. Vagueava pelas ruas e becos do arraial de Paula Lima, dia inteiro e, à noite, sumia para seu pouso que a todos era desconhecido. Às vezes, desaparecia algum tempo e ia deambular na vizinhança de Chapéu D’Uvas, na fazenda do Zé-tenente. A verdade é que ele vivia nos povoados de Chapéu, Ewbank e Paula Lima, conforme fosse sua conveniência. Zumbi não fazia mal a ninguém, só queria ajudar... gastava os parcos trocados na venda do “seu” Nenzinho, onde bebia tragos generosos de pinga. Ele nunca ia ao chão, mas ficava muito chato e conversava lançando perdigotos e batendo com a mão no peito do ouvinte. Há gente que não gosta desses toques e um deles era “seu” Nenzinho, o vendeiro. Nenzinho era brincalhão, porém só ele podia brincar com os demais e achava um desrespeito ser tocado por Zumbi. Certa feita ficou muito irritado e expulsou o bebum da venda. Zumbi, após atravessar a rua, virou-se e deu uma banana pro “seu” Nenzinho, que pegou o que estava à mão: uma lata de azeitona e jogou-a no malcriado. Zumbi quis dar o troco, apanhou a lata que lhe chocara na cacunda e dispôs-se a devolvê-la. Nenzinho pegou a garrucha na gaveta e atirou: não em Zumbi, na lata de azeitona. Zumbi, muito assustado subiu a rua correndo, a lata escorrendo o caldo pelo furo, foi se aninhar no adro da igreja. E naquela venda ele nunca mais pôs os pés,havia outras disponíveis. Continuou prestando serviços à comunidade e ajudando os que precisavam: capinado uma horta, levando um recado pra namorado, fazendo entrega de gêneros,executando serviços braçais, humildes e bebendo seus traguinhos em cada botequim aberto. À noite, retirava-se para seu misterioso tugúrio e quando se lhe perguntavam pela toca, respondia que era protegido das almas. Coruja que não “gava” o toco pau nela...

–– Zé-zum! Zé-zum! Zé-zum! –– eram os meninos de rua: “Baú, Fura ôio e Ambrósio” que atazanavam Zumbi, imitando-o no andar desengonçado. Nada que alguma pedrada não resolvesse. Zumbi só as atirava para assustar. Bom Zumbi, belo coração, pobre como o Homem de Nazaré.

Entre os povoados de Paula Lima e de Ewbank ficava o cemitério de Ewbank. Tranquilo, modorrento, na paz do Senhor. Era numa encosta: embaixo, ficava a cachoeirinha; em cima, entre as águas e o campo santo, passava a estrada de rodagem.

A velha estrada aproveitava os meandros de caminho novo do Brasil-colônia.

Como dissemos no início, a noite era tempestuosa... relâmpagos cruzavam os céus intumescidos d’água, trovões ribombavam, e a noite escura bebia do aguaceiro. Na altura do morro da Cachoeirinha descia a enxurrada. Naquele tempo, não há muito tempo, a estrada Juiz de Fora-Belo Horizonte era macadamizada e, nos períodos chuvosos, transformava-se num imenso lamaçal, onde veículos, principalmente caminhões atolavam. Fazendeiros havia que mantinham juntas de bois para ajudar a desatolar veículos nos pantanais formados. Uma viagem de Juiz de Fora a BH durava até 16 horas; hoje em dia, faz-se em três horas e meia.

Pois bem, dizíamos que a noite era um breu, raios clareavam a noite e o muro branco do cemitério que ponteava aos clarões. Mateiros afirmavam ver luzes nas tumbas. Aliás, havia discussão entre os homens rudes das matas: o porquê do muro em cemitério.Pessoas de fora, não queriam entrar; os de dentro, não podiam sair. Um paradoxo sem resposta.

A chuvarada indicava fortemente que caminhões e carros estacionassem e reiniciassem a viagem no dia seguinte, mas havia os apressados: um caminhoneiro enfrentou as agruras do tempo e, após uma talagada de boa cachaça mineira,em Paula Lima, seguiu viagem. Aconteceu que após passar pela fazenda do Cité, de Quinquim Felício, a mais ou menos dois quilômetros da Cachoeirinha, e do cemitério, o caminhão começou a ratear e por fim enguiçou de vez. Após inúteis tentativas e do barulho característico do motor reticente, o motorista decidiu utilizar a manivela, tendo cuidado de deixar o veículo em ponto morto. O motor chegou a roncar e estremecer e voltar a parar. O motorista levantou o capô, curvou-se tentando descobrir apalpando aqui e ali, evitando partes quentes...

A chuva amainara; o cemitério tranquilo estava... entretanto, uma luz de vela bruxuleou ao lado de uma catacumba abandonada, no topo do morro. Um vulto desceu ziguezagueando entre tumbas. O fantasma trazia um capuz e protegia a chama da vela com uma das mãos em concha. Um mocho voou das ruinas da capela abandonada com pio horroroso... E a aparição chegou ao portão do cemitério, onde o motorista tentava consertar o veículo. Aí, Zumbi, pois era ele, o portador da luz, falou:

–– Ô moço, quer uma ajudinha?

Dizem que o chofer está correndo até hoje.

Verdade verdadeira, a lenda é bem viva em Paula Lima. Perguntem ao seu Nenzinho...

Talvez em versos simples e sinceros seja mais emocionante. Vejamos:
1
Ó Senhor Divina Luz
criador do ser vivente
ilumine minha estrada
ponha-se na minha frente
escrevendo faço história
e me sinto bem contente

2
Vou escrever uma lenda
dum zumbi de Paula Lima
vivia zanzando em bares
é bebendo que anima
transitava pelas ruas
no arraial de baixo acima

3
À noite o homem sumia
para pouso ignorado
de dia era mendigo
ganhava algum trocado
Em boteco da esquina
só saía embriagado

4
Perambulava por aí
em Chapéu D’Uvas contente
na estrada da fazenda
do ricaço Zé Tenente
Zumbi ia e voltava
e sumia de repente

5
Ele era reconhecido
por não maldizer ninguém
gostava de ajudar
na vida de vai e vem
capinava os quintais
não cobrava um vintém

6
Gastava o numerário
na venda de seu Nenzinho
bebia muito vermute
e ficava animadinho
nunca caia ao chão
só ficava bem chatinho

7
Conversando dando bafo
na cara de quem o ouvia
muita gente não gostava
e achava uma heresia
respirar bafo de bêbado
uma esponja noite e dia

8
Seu Nenzinho vendeiro
era muito brincalhão
só ele podia brincar
sem ter retaliação
se outro brinca com ele
era chamado atenção

9
Achava um desrespeito
ser tocado por Zumbi
certa vez muito irritado
expulsou o homem dali
Zumbi atravessou a rua
nunca mais eu volto aqui

10
Virou-se mandou banana
tome essa seu Nenzinho
vai você e sua venda
a ferver no inferninho
e leva uma branquinha
pra beber lá no caminho

11
Seu Nenzinho irritado
jogou-lhe o que tava na mão
uma lata de azeitona
no Zumbi com direção
mas ele se esquivou
e a lata caiu ao chão

12
Mas Zumbi quis dar o troco
pegou a lata no chão
galeou e jogou a mesma
na direção do valentão
Nenzinho pôs mão na gaveta
e pegou um garruchão

13
Deu um tiro pro alto
pra ver o que acontecia
a bala pegou na lata
só o caldo escorria
Zumbi quando viu aquilo
saiu na correria
14
Foi pra porta da igreja
e ficou descansando
pensando com ele mesmo
Deus está me ajudando
a bala de seu Nenzinho
passou pertinho triscando

15
Zumbi não se acovardou
daquela agressividade
continuou prestando
serviços à comunidade
capinava horta e pomar
em caso de necessidade

16
Fazia entrega de compras
e pegava no pesado
problema era os traguinhos
que derrubava um bocado
De noite ia pro refúgio
um lugar ignorado

17
o pessoal o procurava
nas noites mais calmas
como fumaça sumia
tinha proteção das almas
coruja que gava o toco
suas asas batem palmas

18
Eram meninos de rua
Zezum, Zézum, Zézum
os tais Baú Furaoio
atormentavam zum-zum
seu andar desengonçado
Claro ele era bebum


19
Zumbi pegava pedras
somente pra assustar
ele tinha bom coração
a ninguém quer magoar
seu vicio era a caninha
ele não era de brigar

20
O antigo Brasil-colônia
tinha trilhado destino
chamava estrada real
um caminho genuíno
para ser chegar ao ouro
no Distrito diamantino

21
Entre Chapéu e Ewbank
Um cemitério central
era pra negros escravos
e pra ricos no metal
perto da cachoeirinha
águas claras de cristal

22
E naquele cemitério
junto estrada de rodagem
de Juiz de Fora a BH
na metade da viagem
em noites de chuvarada
não daria pra passagem

23
Na noite tormentosa
Raio na escuridão
clareava o cemitério
apontava a direção
passantes diziam que viam
luzes saindo do chão

24
O povo no arraial
vivia amedrontado
com aparição de luz
que ali era contado
que a noite mui trevosa
tinha o diabo guardado

25
Quando há tempestade
devemos nos precaver
e não viajar sozinho
deixa o dia amanhecer
pois na estrada atolando
não deve pagar pra ver
26
Havia um apressado
caminhoneiro sisudo
botou carro na estrada
com cara de carrancudo
mas ficou preso no barro
acabou só no escuro

27
Porém era um tinhoso
Tomou da pinga mineira
desconsiderando o aviso
resolveu fazer besteira
disse pra quem queria ouvir
que aquilo era bobeira

28
Menos de dois quilômetros
da fazenda do Quinquim
no sítio chamado Cité
perdeu o virabrequim
ele disse estou perdido
não vejo estrada e capim

29
Pisou na embreagem
o veiculo a ratear
ele se viu apertado
começou imaginar
estou em teia de aranha
não sei como esquivar

30
Pôs o carro em ponto-morto
foi tentar na manivela
o motor até pegou
mas parou na banguela
ele levantou o capô
e foi verificar a vela

31
A chuva é diluvial
Mocho piou e voou
numa tumba lá no alto
luz mortiça brilhou
o cemitério tem vida
o mundo não acabou

32
Fantasma em ziguezague
por tumbas até portão
onde estava o motorista
e também o caminhão
Moço quer uma mãozinha
a voz saia do chão

33
Era o Zumbi beleza
o portador da luz
queria ajudar o próximo
como assim fez Jesus
o motorista correu
fazendo sinal da cruz

34
Até hoje não se sabe
que fim o homem levou
não voltou para buscar
o veiculo que ficou
sumiu pelo mundo afora
nem seu rastro ele deixou

35
O povo de Paula Lima
conta muito este fato
dum motorista valente
com medo caiu no mato
deixando um caminhão
de presente sem contrato

36
Zumbi com acontecido
também ficou assustado
deixou o vício da pinga
para ser homem honrado
o carro do viajante
para Zumbi foi doado

37
Deus criador e pai
quero te agradecer
por agitar minha mente
neste meu novo entender
escrevendo esta história
me fazendo reviver

Texto publicado no Benficanet em 17/12/2014
Inclusão de versos 02/02/2015

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