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por Asséde Paiva
(rosarense), bacharel em Direito e Administrador. Autor de Organização de cooperativas de consumo (premiado no IX Congresso Brasileiro de Cooperativismo, em Brasília); Brumas da história do Brasil. RIHGB nº 417, out./dez. 2002; Possessão, São Paulo: Ícone Editora, 1995; O espírito milenar, Goiânia: Editora Paulo de Tarso, s.d. Trabalhou na CSN 35 anos.

1988 acessos.

 
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MEU TIPO INESQUECÍVEL

Quanta saudade dos bons tempos de Granbery, meu orgulho de menino Granberyense. Devo escrever sobre isto?... e lá se vão 66 anos... Saudade dos amigos, professores, vitórias, derrotas! Sonhos. Sim, tenho coragem, vou escrever sobre o professor mais sábio, marcante, competente, bravo, durão... Mas, ai! Dúvida atroz me envolve. Qual seria o mestre de meu tempo? O mestre ou mestra que marcou minha vida? Seria a professora Irene Montes? Talvez sim, pois até hoje guardo, com carinho ciumento, meu caderno de desenho, com frases de profunda filosofia como: “Quem semeia nuvens, colhe tempestade” e “Não desanimes nunca, se isto acontecer, continue trabalhando”. Ih! Como esquecer o prof. João Panisset, meu professor em História Geral? Afinal, tirei 10 o ano inteiro, e ele feliz: “Este menino sabe muito...” O Julio Camargo, na Geografia, era ‘demais’ e nos desafiava: “Aquele que tirar 10, nas provas ganha um mês de cinema”. Não me lembro de que alguém tenha ganhado o prêmio. E quando chegava à sala, nos mandava abrir o Atlas de Aroldo de Azevedo, citando a página certa, de cor. Discorria sobre o tema com total segurança. “Rios da margem esquerda; cidades à margem direita, ferrovias e distâncias, populações”. Em uma prova final não tive tempo de escrever tudo que sabia e ele compreendeu, viu que fora questão de tempo e elevou minha nota (a dissertação valia quatro pontos, ele me deu seis). Querido professor... Acho que foi você, meu tipo inesquecível. Não sei não... Temos um porém, como olvidar Paulo Henriques, o mestre, em Matemática. Ele nos enfiava pela goela abaixo, sem dificuldades, conceitos aritméticos e detestava quem não punha o traço de fração exatamente na horizontal. Jamais esquecerei do professor Augusto Gotardelo, grande na língua portuguesa, didática insuperável. Ele pegava do ‘machado’ abria minha cabeça e despejava ensinamentos como este: “Acentuam-se todas as palavras proparoxítonas: pêssego, lâmpada, límpido”. E muito mais, o ano inteiro. Obrigado, professor! Você ensinou-me amar a língua pátria. Repouse na mansão dos bem-aventurados. Afirmo que você me ensinou tudo que sei de nosso idioma. Seria, também, inominável injustiça esquecer nosso professor de inglês, Irineu Guimarães. Não tenho adjetivos para qualificá-lo, ele excede todos. Foi tão amigo que o elegemos nosso paraninfo. Este extraordinário mestre, veio neste planeta Terra para semear o bem. Ao encerrar a carreira, no magistério, foi cuidar de crianças carentes, do berço ao casamento, através do Instituto Dona Selva. Não paremos aqui, temos muito mais a lembrar à medida que as brumas da memória vão se desfazendo. Quem sabe dona Marta Waltenberg foi a inesquecível mestra e orientadora de minha juventude? Ela, além de aulas aos alunos da 5ª série do primário, dirigia o dormitório dos meninos, onde eu ficava junto a outros colegas. Os nomes, da maioria deles, perdidos nos escaninhos do meu cérebro, mas ficou o apelido do menino de Uberaba: Arnaldo Mendes, meu colega de quarto. Ocorrem-me, também, os nomes Dirceu, Pacífico e Ronaldo Gori, este tão pequenino, que dormia no apartamento de dona Marta, no fim do corredor do dormitório. Ela promovia uma espécie de campeonato de camas bem arrumadas. Um dia comentou no refeitório, lotado de alunos internos: “A cama do Asséde parece um ninho de guaxo”. Gargalhada geral e eu morto de vergonha. Ah! Quando após 25 anos revisitei o Granbery, fui à sala onde Marta lecionava português aos meninos e meninas do primário. Ela ficou tão feliz ao me rever, que pôs todos de pé para me aplaudir. Foi um momento mágico em minha vida. Cito, também, a professora, excelente mestra, de aritmética do 5º primário: Hermínia Coutinho, esguia, morena, óculos de grau e enorme bondade. Lembro-me, perfeitamente, da diretora Carolina Coelho, que entrava na sala para entregar os boletins mensais. Uma vez tirei dez em tudo, i.é., em todas as matérias e ela escreveu “parabéns nos estudos”, deixando nas entrelinhas que meu comportamento deixava a desejar. Nem tudo são rosas; um professor de ‘Admissão ao Ginásio’ encarou-me e disse: Este vai ser reprovado!... E fui mesmo. Esqueci o nome dele, não do fato. Talvez ele me tenha feito um grande bem ao despertar meus brios e vencer. Voltemos ao ginasial, onde o professor Romano tentava, inutilmente, nos incentivar a estudar Esperanto. Falemos do professor Reynaldo de Andrade que, com imensa paciência, nos fazia decorar pautas musicais, colcheias, semicolcheias, fusas, semifusas, mínimas e semínimas, bem como cantar nas aulas de Canto Orfeônico. Mestres inesquecíveis: Benevenuto de Paula Campos, bondosamente nos empurrava o latim que teimávamos em não aprender; nominativo, genitivo, dativo, acusativo, vocativo ablativo; “Fábulas de Esopo’, “De Bello Gallico” e as “Metamorfoses de Ovídio”. Professor, Bené, desculpe, mas naquela época não consegui entender como latim era tão importante para mim! E Nilo Ayupe, grande e impaciente mestre, a nos ensinar Ciências. Quando nós, alunos irreverentes, fazíamos ruído, ele dizia mal-humorado: “Vocês não me conhecem!” Não sei por que pusemos nele o apelido de Nilo Pâncreas. Desculpa, mestre Ayupe, era carinho só. Adivinhávamos que nele habitava a bondade em pessoa. Absolutamente, não cometerei o crime imperdoável de esquecer madame Zilda (Zildá), assim dizíamos. Ela esperta no idioma francês. Seu nome completo era Zilda de Barros Jardim. (minha memória ainda está boa). Estou divagando, não respondi à pergunta fundamental: Qual o meu tipo inesquecível? São tantas as coisas que quero dizer. O tempo exige que pare por aqui. E ainda quero falar das ‘assembléias’ que por 10 minutos reunia todos os alunos no salão nobre (salão Lindenberg) para louvar o Senhor. Embora não professasse a religião Metodista, adorava o hinário e até hoje me apanho cantando Bênçãos Divinas: “Se da vida as vagas procelosas são. / Se com desalento julgas tudo em vão. / Conta as muitas bênçãos, dize-as de uma vez. / “Hás de ver surpreso quanto Deus já fez.” Meu tipo inesquecível, não foi uma pessoa física, foi e é pessoa jurídica, entidade espiritual/material, que congregou, ao mesmo tempo, tantos bons mestres e discípulos de primeira água e que, sob o sagrado som de um sino, aprendemos: probidade, respeito mútuo, ética, religiosidade, tolerância, solidariedade, ecumenismo, camaradagem, bons princípios. Esta Entidade, este Ente inesquecível, o gigante branco chama-se Granbery.

Comentários:

Mozart Guariglia de Oliveira - Teresópolis - RJ - 13/01/2017
Prof. Montes! Irene montes! Panisset! Paulo Henriques que encordoava minha raquele de tênis e memoráveis bordoadas nos cangotes de meu primo Paulo César e eu pra conseguir aprender do jeito que ele queria e foi meu problema a vida inteira! Mas fica a lembrança indelével do Mister Harrel, meu reitor predileto inexplicavelmente esquecido da memória do Granbery! Tive contatos com ele até uns 15 ou 20 anos atrás! E você Zé Mattos, bom de bola, jamais esqueci...

Mozart Guariglia de Oliveira - Teresópolis - RJ - 13/01/2017
Prof. Montes! Irene montes! Panisset! Paulo Henriques que encordoava minha raquete de tênis e memoráveis bordoadas nos cangotes de meu primo Paulo César e eu pra conseguir aprender do jeito que ele queria e foi meu problema a vida inteira! Mas fica a lembrança indelével do Mister Harrel, meu reitor predileto inexplicavelmente esquecido da memória do Granbery! Tive contatos com ele até uns 15 ou 20 anos atrás! E você Zé Mattos, bom de bola, jamais esqueci...

Assede de Paiva Oliveira - Volta Redonda - 11/10/2015
Paulo Henriques: o melhor professor de matemática que conheci. Também meu tipo humano inesquecível. Sem dúvida, Paulo Henriques foi um professor inesquecível.

Sérgio Rooke Asquenazi - Vila Inglesa - Campos do Jordão - SP - 29/07/2015
O prof.Paulo Henriques foi o meu tipo inesquecível no Granbery.Por coincidência acabei me casando com uma sobrinha dele, Sueli Henriques Asquenazi. Hoje fazemos 47 anos de casados.

José Soares de Mattos Filho - São Paulo - SP - 23/02/2014

Ótima recordação para mim e para todos que tiveram o privilégio de estudar no Granbery.
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