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Recordar é Viver!

por Asséde Paiva (novembro, 2011)
(rosarense), bacharel em Direito e Administrador. Autor de Organização de cooperativas de consumo (premiado no IX Congresso Brasileiro de Cooperativismo, em Brasília); Brumas da história do Brasil. RIHGB nº 417, out./dez. 2002; Possessão, São Paulo: Ícone Editora, 1995; O espírito milenar, Goiânia: Editora Paulo de Tarso, s.d. Trabalhou na CSN 35 anos.

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MEU  LÉ
(Estória de um porquinho feliz... até certo ponto)
Dedico a minha mãe Didi (in memoriam) e ao Lé.

   Nasci numa tarde chuvosa e úmida, na fazenda São Mateus. Minha mãe bufava, ou rouquejava e nós saindo um a um. Passávamos em túnel estreito, escuro e rolamos ao chão; uma cria atrás da outra. Finalmente, éramos oito irmãos e quatro irmãs, doze qué-qué-qué. Que ninhada! Para minha desdita, fui o filhotinho mais fraquinho. Os demais, logo, logo se desvencilharam dos invólucros protetores, arrebentaram o cordão umbilical e estavam mamando nas tetas recheadas de colostro. Hum-hum-hum! Custei um pouco a me libertar e corri com perninhas bambas para sugar leite quentinho, mas... Fui empurrado, pisado e expulso. Escorreguei por cima dos outros, fui parar longe. Voltei, tentei, tentei e consegui, mas quase nada sobrou para mim. Ah, que gostoso o leite da mamãe! Depois veio a noite, pra mim sobrou o cantinho mais frio entre pernas dela, enquanto os outros estavam quentinhos aninhados na sua barriga. Em poucos dias, todos cresceram, menos eu que fiquei miúdo, excluído. Aí, apareceu a cinco dedos. Magra e muito alta. Vi que era boa de coração, sorriu para mim, curvou-se sobre a cerca que dividia nosso mundo e pegou-me no colo. Credo! que focinho amassado, o dela! A criatura apalpou-me entre mãos. “Nossa, vai me matar agora”, pensei, mas não foi assim. Ela falou numa língua desconhecida, mas entendi pela doçura: Coitadinho, tão pequenino, fraquinho vem comigo. E me arrastou para longe dos meus irmãos, me aquecendo, me confortando, murmurando palavras meigas ao ouvido. Ela chamou “mãe!” Vou cuidar deste porquinho, me dá um leite! Logo, veio com um vidro, cheio de liquido branco, aparecendo uma ponta como a teta de minha mãe. Estava quentinho: é-um-é um-éum! — é meu jeito de mostrar satisfação — mamei tudo.
    Tempo vai, tempo vem... “Chuva miúda não mata ninguém...” Dias e noites, muitas luas foram e vieram; sóis, também. Eu sempre ao lado de minha dona que me adotou para tudo: no trabalho, na folga, nas brincadeiras, no sono. No princípio, dormia ao seu lado; mais tarde ficava aos pés da cama e, quando muito gordinho, roncava num colchão de palhas de milho, na pocilga. Eu comia muito fubá, restos de comida, insetos, cascas de frutas, milho moído e principalmente muito leite na gamela. Que bom! Estranhava minha dona cobrir a pele com uma segunda pele que chamava vestido. Eu não me dou bem com isto; é estranho, meu pelo liso, amarelinho, com pintas brancas, me basta. Ela costuma me dar mingau de fubá no coité. Gosto de repousar meu queixo na perna dela. Os melhores momentos se dão quando ela canta em voz baixa seu amor por mim. Não a deixarei nunca... Minha dona, minha amiga, pronto, basta-me! Adotou-me, melhor pra mim. Aliás, grande é a família feiosa, para meus olhos: uns, são mais altos; outros, mais baixos e gordinhos; uns, violentos, me chutam; outros me fazem carinho e vou levando de mansinho, culé, culé. De vez em quando, dou uma fugida ao local dos meus iguais, furo um buraco na cerca e me chafurdo gostosamente no lamaçal, com meus irmãos. Minha dona corre, me apanha me chama ‘porco’, não entende que sinto muito calor, preciso da lama pra me refrescar. Ah, que delícia quando ela me joga água!
   — Tome meu Lé, tome! — Me dá palmadas carinhosas.
   Assim fiquei sabendo meu nome Lé. Ah, ela me dava restos de comida, leite azedo, com fubá e fui crescendo, crescendo. Às vezes, íamos visitar a vara na mangueira era uma zoeira só. Minha turma crescia bem mais rápida do que eu, talvez porque espojassem o tempo todo naquele barro e fossem livres para mamar toda hora o leite da minha mãe, 'porca'. Um dia, sem nenhuma graça, minha mãe adotiva me deu batata quente, me queimou o céu da boca, corri pra beber água. Ela riu e pediu desculpas, mas tinha instantes de má, como pôr pimenta no chuchu só pra me ver soprar, correr desesperado para beber água.
    Bonito sou eu, com meu lindo focinho. Minha amiga anda ereta. Suas patinhas de cima são desagradáveis de se ver, quando me alisa, ou se põe de quatro, para brincar "Vamos brincar meu Lé!!!" Aí ela me imita, grunhe e corremos pelos quartos e salas: Eu com meu oinc-oinc-oinc e ela gritando: ai-ai-ai a onça vai te pegar! E me pegando pelas pernas se levanta aconchegando-me ao colo. Vida boa... Fico tão feliz quando ela pega da viola e toca para mim.
Gosto de ir pro terreiro infernizar o cachorro, mordendo ora seu rabo, ora a orelha; rouquejar para os patos, fuçar monturos aqui e ali, espantar galinhas quó-quó-quó, interromper o cocoricó-co-coró dos galos e correr do pavão. Dos glu-glu-glu, tenho medo. Depois de brincar a valer, vou tranquilo, deitar numa poça de barro, na beira do córrego, no jabuticabal. Minha Maria detesta meu comportamento. Um homem carrancudo, o pai dela, um dia falou: "Tira este bicho de dentro de casa, Maria!" Aprendi a linguagem dos homens, afinal sou um dos mais inteligentes animais, contudo, quando me espojava, na lama fresquinha, vinha ela correndo e gritava: 'Porco'! Um apelido chato, pois, chamavam 'porco' aquele de pouco asseio. Tenho asseio, sim; um lugar para sujar. Era ofensa a mim, mas não liguei. Ela me levava pro banho, tirava meus bichos-do-pé e voltávamos a correr pelo terreiro, pomar, curral. No curral, uma vaca me deu uma patada que resvalou pelo rabo e cortou um pedacinho dele, perdi o lacinho, fiquei cotoco. Quando me livrava de Maria, gostava de saltitar ao lado do boi jungido ao braço da moenda de cana; de pegar borboletas esvoaçantes no quintal e outras artimanhas, porém, um dia fui mexer numa corda que não era corda, era cobra; quase morri. Felizmente, a picada pegou na minha unha. Minhocas e os insetos são gostosos. Sou bom pra comer, como de tudo: cascas, frutos, raízes, cana, pequenos animais, restos, capim e outras gostosuras. Que pena que minha dona não possa fuçar! Seu nariz e fraco, mas seus cinco dedos são muito bons para pegar coisas. Só tenho quatro dedos em cada pata e só uso dois de cada.
     Um dia o velho falou sério: “Maria, vem cá!” Ela foi correndo ao carrancudo. "Vamos comer este leitãozinho no Natal, ou na virada do ano. Acabei de vender a porcada, tem peste suína na Cachoeira".
Meu Lé, não! Maria correu para sua mãe. — Mama, papai quer comer meu Lé!
— Deixa minha filha, eu cuido disso, ninguém vai comer seu Lé.
No dia seguinte, fui a chiqueiro nada mais havia lá, agora era eu e a amiga só. Cresci e cresci, ela não me aguentava no colo e fiquei cada dia mais belo, mais lustroso.
Vieram a mim dois homens mal encarados, me seguraram, abriram um canivete e me cortaram lá atrás, Que dor horrível, desesperadora! Guinchei, lutei, chorei, mas puseram um joelho na minha cara, enquanto o outro arrancava minhas bolinhas e as jogava fora para cachorros comerem. Depois, passaram sal grosso no ferimento e me soltaram. Corri gritando de dor, sangrando. Minha dona (e amiga) correu, me pegou, fez carinho e me lavou; ai, que dor! Fiquei doente, não queria comer. Ela me deu remédios, limpou minha ferida. "Tadinho do meu Lé!" Eu não gostava de ser chamado 'porco', pois, pareço demais com os humanos, Minha cara é diferente, é mais bonita. Eu me enlameio porque sinto muito calor, em compensação minha dona tem os pés gelados e me chama para esquentá-los, enquanto costura. Para isto, sirvo. Não é?
    Sarei daquela horrível ferida, fiquei maior, mais pesado e engordava a olhos vistos. Andava em volta da casa pelo quintal. Saudade de brincar, correr atrás das galinhas e outras travessuras. Quando minha mãe 'humana' chamava meu Lé, eu corria e deitava aos seus pés, os esquentava e dormia, enquanto ela trabalhava, costurando roupas e lençóis, cantava: Tatu tá lá no morro / tá danado pra cavar / outra vez tatu, / me ensina cavoucar. Fui ganhando mais e mais peso, até sentia grande dificuldade em subir a rampa da cozinha, minha visão do mundo era nas réstias das pálpebras. Maria me chamava eu acudia e a amava. Subia a escada na maior dificuldade. Depois, não voltei mais, fiquei ao relento mesmo. E o tempo passou e eu cada vez mais gordo, diziam que estava no ponto. Que ponto? Não entendi. Pouco depois desta fala, num dia embruscado, sem pássaros no céu, sem pio do trinca-ferro, ouvia-se o chorocar tristonho fuóó, do macuco, na mata. Meu coração triste disparou: "Vem meu Lé!" Fui. Desta vez tiveram que me ajudar a subir a escada de pedra. Meu peso perto de quinze arrobas; no ponto... Minha dona esperava na entrada. Ouvi o chinchinar do carro de boi ôa- ôa-ôa ô-ôa, do carreiro e depois o silêncio. Não entendi o que se passava. Minha dona entrou casa adentro, sempre me chamando, "Lé, lé, lé, lé! Vem meu Lé, vem!" E eu atrás, em total confiança. Atravessamos a casa e no alpendre estava parado o carro de bois com a mesa recostada na altura do último degrau de pedra. Fizeram uma passarela para eu entrar nela. Recuei, desconfiei da armadilha. Minha amiga, minha dona entrou para me inspirar confiança. Acompanhei-a... Ela, então, pulou da esteira para o cabeçalho e fecharam o vão, atrás de mim. Agouxe, agouxe incitou o carreiro. Os bois em sincronia arrancaram e o carro chiando nos cocões: Tá pesaaaado! aaado! Eu tinha lágrimas nos olhos, meu destino selado... FIM.
     Adeus Maria das Dores / Da fazenda São Mateus / Sob a esfera luminosa /
     Ficarei com todos meus / Esperarei ansioso / Para brincarmos com Deus.

Abaixo, Fazenda São Mateus há 22 anos; pouco mais, pouco menos.
publicado no Benficanet em 16/12/2011
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