por Asséde Paiva
(rosarense), bacharel em Direito e Administrador. Autor de Organização de cooperativas de consumo (premiado no IX Congresso Brasileiro de Cooperativismo, em Brasília); Brumas da história do Brasil. RIHGB nº 417, out./dez. 2002; Possessão, São Paulo: Ícone Editora, 1995; O espírito milenar, Goiânia: Editora Paulo de Tarso, s.d. Trabalhou na CSN 35 anos.

 
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Os olhos de Ambrósio
Meninos! Há muito anos em Paula Lima, aquele povoado perto de Juiz de Fora...

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Papai e mamãe estavam namorando e fizeram Antes que visse a luz um ninho naquele coqueiro.
     Pronto, mamãe teve dois ovinhos, cuida muito bem deles mantendo-os sob suas asinhas quentinhas e protegidas da chuva. Passaram-se dias... nasci com um irmãozinho Luquinha. Quebramos a casquinha e logo pulamos peladinhos, de olhos fechados, pescoço fininho e biquinho bem aberto pedindo comida, porque nascemos com fome. Papai foi buscar larvas, e minhoquinhas e mamãe ficou cuidando de nós. Chega, então, uma mosca malvada, que distraiu mamãe e depositou ovas em minha cabecinha. Em pouco tempo, nasceram bernes nojentos, um de cada lado. Viu só, agora tenho dois vermes que são quase do tamanho de minha cabeça. Sou tão desprotegido. Aí chegou um menino esperto, subiu na árvore e me pegou. –– Coitadinho! disse ele pra mim: “Você é filhote de melro” e espremeu a pele fininha pondo os bernes pra fora, mas levou-me com ele, que maldade. Fiquei sem papai, sem mamãe e sem irmãozinho, que ficou no ninho lá no alto do coqueiro. Fui levado por meu raptor que me vendeu para outro menino, que me chamou “Ambrósio” em homenagem ao meu dono anterior. E Luquinha, meu irmão, ficou lá; aonde voará? É vivo ou morto? Meu dono morava em Paula Lima, belo e pacífico povoado. Fui, desde então, bem tratado e fiquei muito feliz ao lado do bom menino. Ele comprou gaiola de pinho, gostei muito, porque nunca voei num céu azul. Todo dia, vinha ele me dar alimento, enquanto minha penugem transformava-se em lindas penas negras. Ele me chamava: “Ambrósio, Ambrósio!” Eu corria pra perto das barras da gaiola, o menino alisava minhas penas, minha cabeça, eu me deliciava com isto. Um dia, meu amiguinho contou-me que estava triste, pois, ia partir para longe, muito longe. Escutei, de olhos bem fechados, quem sabe eu chorava... Suas palavras eram de receio do futuro. Ia me deixar sozinho. Falou-me que sua mãe cuidaria de mim e partiu, foi à luta.
      Muito tempo passou, cresci, fiquei bonito, aprendi a cantar mais ou menos assim: "É do rico ou do pobre! Ranco pico e jogo fora!" Eu imitava outros pássaros: rolinha, tico-tico, canário, que vinham à gaiola comer comigo. Cantei duetos com trinca-ferro, bem-te-vi e tiziu. Imitava também sô Nenzinho, do outro lado da rua.
     Um dia, a porta da gaiola ficou aberta, fugi. Na verdade, só voei pela primeira vez, e fui pousar em bela mangueira, não muito longe, porque minhas asinhas eram fracas. Logo, veio minha dona e filhas gritando por mim, assobiando, chorando por mim.
     Voltei à prisão da gaiola, porque era meu lar, eu não sabia o que era liberdade, além dos arames da gaiola. Muitos verões passaram e muitas luas também. Meu dono voltou cabisbaixo, derrotado. –– Oi, Ambrósio! Senti saudade, amigo do meu coração! Alisou-me por algum tempo. Fiquei todo arrepiado. A alegria de nós dois era enorme.
     Meu dono era aflito, tinha ânsia de partir, vencer na vida. Resolveu fazer outra aventura, foi embora e não voltou mais. Seu pessoal (mãe e filhas) cuidava de mim.
     Fomos de mudança para a cidade onde meu grande amigo, meu dono morava. Fui na minha gaiola, bem amarrada, em cima do caminhão e viajaram horas. Quando cheguei, estava quase morto de sede. Penso que não foi maldade do motorista, foi ignorância mesmo. Então, reencontrei meu dono. Alegre, cantei e fechei os olhos para receber carinhos, cafunés, arrepiei as penas. –– Ambrósio, Ambrósio! Ele me alisava com todo amor e saudoso.
     Aí, meu dono achou que devia ter a própria casa, um lar, uma família e filhos. Casou e teve dois filhotes e trabalhava demais, dia e noite, para o sustento do lar. Só me via vez por outra, principalmente ao limpar a gaiola, pôr água, alpiste e arroz.
     Mais alguns invernos se passaram. Havia muitas outras preocupações para todos. Um dia, me esqueceram de fora de casa, num frio e vento rigorosos. Aconteceu o pior: fiquei frio, tiritante... Tentei dormir, tremi, enregelei, e meus olhos fecharam-se para sempre.
     Meu amigo nunca me esqueceu... "Não chore por mim, eu canto pra você no céu dos pássaros-pretos".

 

Texto publicado no Benficanet em 17/04/2014

Comentários:

Assede Paiva - Volta Redonda - RJ - 12/07/2014
História de um pássaro-preto.
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