IMORTAIS: TIL & THOT

por Asséde Paiva
postado no Benficanet em 19/07/2017

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Para quem escreve memórias, onde acaba a lembrança? Onde começa a ficção? Talvez sejam inseparáveis. Os fatos da realidade são como pedra, tijolo –– argamassados, virados, parede, casa, pelo saibro, pela cal, pelo reboco da verossimilhança –– manipulados pela imaginação criadora. (Pedro Nava)

 

Uma ciganinha ontem leu a minha sorte, e ela me pediu para que eu não saísse de casa hoje, porque havia grande perigo, como indicava minha linha da vida; não posso obedecer, tenho compromisso. Não acredito em buena-dicheira ou vidência. Sou agnóstico, não creio nas coisas materiais e/ou imateriais, eu sou energia; tudo é. Não há destino, predestinação, salvação, ressurreição, escatologia cristã, apocatástase, mistério do eterno retorno e quejandos. Também não sou fervoroso defensor do livre-arbítrio, aliás, disse um pensador: “Nosso livre-arbítrio é livre como um pássaro na gaiola.” Por exemplo, eu gostaria de obedecer à ciganinha, contudo não vou; hoje também vou optar pelo caminho de ferro, eu sei que posso ir pela estrada macadamizada, mas não dá, não, porque inexiste livre-arbítrio e combinei um encontro... Assim, minha liberdade é quase zero. No fundo, nós fazemos ou deixamos de fazer o que nos permitem, somos dentes de uma engrenagem da qual não podemos escapar. Somos coagidos sempre, pensamos que estamos agindo de tal ou qual forma, porque queremos; doce engano. O statu quo é que nos mantém dominados e disciplinados, a cumprir uma missão desconhecida e sem sentido. Não obstante...

Caminhamos tais qual gado no matadouro. Nada muda, temos apenas sensação de mudar, somos formiguinhas a alimentar a rainha em algum lugar secreto no mundo. Vou ao encontro de Mundinho. Serei um sonho de mim mesmo? ou apenas parte desta cosmogonia, poeira astral? Nada mais que um ajuntamento de átomos, dispostos de certa maneira, formando células, que exercem funções diversas e me fazem pensar que existo. “Penso, logo existo.” Balela! Eu sou um pensamento que vaga por aí. Hoje, o dia me promete o melhor: o Sol é radioso, o meu cãozinho Til, serelepe, pede um pouco de ração e eu me sinto leve, solto e alegre. Sim, tudo vai ser muito bom, pois os deuses sorriem para mim, e forças invisíveis conspiram a meu favor: meus negócios prosperam, minha namorada me ama, e meu amigo Mundinho me espera logo ali. Mundinho é só o apelido; seu nome: Raimundo. Encostei a porta da casa, não preciso fechar ou trancar; nada de mal acontece aqui; a vizinhança é honesta, legal e familiar.

Vou à luta do dia a dia, afinal, os meus fregueses não podem esperar... é um barato... eu vendo livros, o pão do espírito, OK! Após eu ter andado uns quinhentos metros na linha do trem, Mundinho me esperava lá adiante. Ele foi reconhecido por Til (sempre comigo), que correu pra ele e recebeu os carinhos de sempre. Mostrou satisfação, sacudindo o rabinho como todos os cães sacodem, ou será que o rabo sacode o cachorro? Cumprimentei Mundinho e continuamos a andança entre os trilhos, pisando nos dormentes aqui e ali, e chutando cascalhos. Até peguei um deles e atirei-o no rio que passava ao lado, separado da via permanente apenas por aleia de erva-cidreira. A pedra deu três saltos como tainhas, antes de desaparecer no imenso redemoinho d’água. Não há bem que sempre dure, nem mal...

De repente, meu coração travou, confrangeu e pensei que algo estava muito errado, mas minha confiança na vida é sem limites, eu sabia ser vencedor de demandas. Logo adiante havia a curva bem acentuada, onde os trens reduziam a velocidade para não descarrilarem.

Após o grito de um triste-pia: “Pague-me os dezesseis centavos que me deves faz mais de ano e meio. Tse, tse”! Mundinho ficou estranhamente mudo (sem trocadilho), eu também dei uma parada na conversa. Os pássaros silenciaram, o vento cessou, o calor nos abrasou; um silêncio profundo nos envolveu. Aconteceu a desgraça: um homem, desconhecido, pelo menos para mim, saiu de trás de um espinheiro de unhas de gato e veio em nossa direção. Até aí, tudo certo. Ele podia caminhar para onde quisesse... mas, sem mais nem menos, o estranho sacou o revólver e epa! Atirou em nós: “bam-bam”! Uma bala passou rente à minha orelha esquerda; a outra coriscou na direita. Mundinho, ah, Mundinho, deu meia-volta volver e disparou em sentido contrário ao atirador, sendo seguido por Til, após ligeira hesitação. Eu fiquei paralisado de surpresa, sentindo enorme friagem da cabeça aos pés, e arrepiaram meus cabelos. O homem chegou mais e mais perto e disse-me friamente: “Eu queria o outro, mas ele fugiu, e com você vou acabar”.

Desabei. Sim, eu tive um desdobramento ou dissociação: ficou a matéria saiu a energia, entrei em outra dimensão. Deixei o corpo estirado ao chão, assisti indiferente à minha execução, ao lado da ferrovia, como se não fosse de meu interesse. Ocorreu um fenômeno inexplicável, mesmo. Minha desmaterialização me deu coragem imensa, não tive medo algum e, mais ainda, tinha certeza de que nada me aconteceria; que ‘meu assassinato’ era brincadeira de mau gosto, piada insossa. Eu sou imortal, rá, rá, rá. O executor baixou a arma, mirando firme na minha cabeça. Puxou o gatilho uma, duas, três, quatro vezes. Uma bala pipocou, bam! No ouvido; outra, bam! Acima na orelha; duas outras, bam-bam! Na nuca. Morri? Não... “graças a Deus!” Eu achava a situação hilária mesmo: o corpo “não era o meu”, o verdadeiro eu estava à beira da estrada, em dimensão paralela, observando o evento. Eu ria daquilo, do grotesco acontecimento.

Depois da covardia inicial, Til se recuperou e reapareceu feroz. Atacou meu executor, mordendo-o nas canelas, rosnando furiosamente, até parecia possuído pelo demônio. O homem negaceava e lhe dava pontapés, mas Til avançava sempre, indômito. Ouviu-se o apito na curva, era uma composição que vinha em nossa direção. O homem recarregava o trezoitão para terminar o “serviço.” Ao ouvir o trem aproximar-se, ele pulou fora dos trilhos; antes, deu em Til mais um tiro que lhe entrou na garganta e deve ter feito um estrago nas suas vísceras. Til lhe deu a última dentada e foi deitar a meus pés. “Pobre e fiel amigo, me defendeu até o fim.” Aproveitei o momento para retomar meu corpo e fugi para o matagal. Ferido, fui bater à casa de Mundinho. Fui?... Encontrei sua mulher que pôs uma panela cheia d’água a ferver; com certeza, para nos defender do sicário, caso ele fosse me perseguir.

Ela não ligou muito pra mim... estranhei. Fui ao banheiro onde me vi todo ensanguentado. Acreditei, agora, que não estava sonhando, ou estava? Era eu? ou um avantesma? Lavei o rosto e vi nitidamente os furos das balas na minha cabeça, na nuca e no ouvido direito. Parece que eu estava examinando outra pessoa, um estranho para mim. Anestesiado certamente estava. Não tinha medo, sou Thot. Evidentemente, algo suprarreal se passava. Então, alertados chegaram os acadêmicos da escola de medicina, que era bem perto. Levaram-me à emergência, esquadrinharam minha cabeça e concluíram que o caso era muito grave para eles tourearem. Resolveram me transferir para o hospital central, na cidade, onde havia mais recursos. Os médicos da radiologia tiravam radiografias, estudavam o problema murmurando, incrédulos: “Destruição do lóbulo direito, comprometimento do canal do ouvido; trompas de Eustáquio rompidas surdez consequente; transfixação da nuca no sentido longitudinal; marcas de tiros à queima-roupa, pelos vestígios de pólvora. Milagre”. Eu não morri, nem acredito em milagres. Plenamente consciente, em decúbito ventral, tentei tomar a radiografia das mãos do radiologista, não consegui, mas vi os sinais de estilhaços e buracos no couro cabeludo. As balas entraram e não saíram... mistério. Elas desapareceram em minha cabeça. Pontos brancos, só pontos brancos marcavam a perfuração delas em meu crânio. Onde os projéteis estavam? Apaguei e acordei horas depois, com uma bandana na cabeça, tapando os ferimentos. Quem foi o meu agressor? Por que atirou em mim? Seria eu vítima da trilogia: homem errado, no lugar errado na hora errada? Aonde foi Mundinho? Em que toca se escondeu? Quem sou eu? Perguntas que me faço, até hoje, sem respostas. Por enquanto, estou aqui pra terminar esta novela. Após quarenta e quatro dias, sem que me atendessem, fugi do hospital até o local do incidente e relato para vocês a inacreditável vicissitude que vivi: a experiência quase morte (EQM). Ah, pesadelo...

“Til vem cá, meu amigo!” Adoro um cigarrinho de palha enquanto espero o trem, que nos levará ao céu das estrelas fixas.

Há no céu e na terra, Horácio, bem mais coisas do que sonhou jamais vossa vã filosofia. (William Shakespeare)

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