Contos Contados - 14/02/2020

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AS CHAVES
por Asséde Paiva

Imagem reprodução ilustrativa

Na história que vou relatar há fatos, versões e quase ficção. Deixo por conta do leitor ou da leitora o juízo de valor. Garanto que tudo pode ou poderia ter acontecido, afinal, no quotidiano, coisas piores, inenarráveis, trágicas se dão. Os jornais, TVs, revistas contam histórias de horror que, à primeira vista, parecem contos de fada, ou história da carochinha. A vida real é muito dura e, às vezes, certos casos nos trazem dúvidas sobre a fauna humana. Então vamos dar um mergulho no que chamamos a vida como ela é.

Minha irmã foi por muitos anos, mais de quarenta, com certeza, acompanhante de idosos. Ela assistiu a verdadeiras tragédias familiares, e também, as cenas comoventes de grande amor. Ela desistiu de exercer a nobre profissão, de acompanhante de doentes terminais, porque era muito estressante, angustiante e doloroso. Viu muita gente morrer em seus braços. Também esteve presente nas discussões entre futuros herdeiros daquele ser que agonizava no outro quarto. Quantas vezes, principalmente nas mansões dos mais abastados, dos ricaços ela presenciou brigas por partilha de bens? Dos mais valorizados aos ínfimos valores de pequenos itens?  Não se envergonhem ao se lembrar de que na sua família se deram fatos tenebrosos semelhantes ao aqui relatado.  Somos todos da mesma raiz: descendentes de Adão e Eva. Se formos bons ou maus, depende do nosso espelho retrovisor e do nosso caráter. Afinal, quem não tem esqueletos no armário? Boa leitura para todos. Lembrem-se de que no mundo há poucos são Franciscos de Assis, ou madres Teresas de Calcutá.

A regra dos homens é luta de todos contra todos, segundo Hobbes.



Usando nosso poder de terceira visão e reminiscências de minha irmã, vamos relatar um diálogo, baseado em fatos:

— Será que Belinha está lelé da cuca ou fazendo de tal? – perguntou Maria.

— Ela é sonsa, diz o irmão, e você sabe.

Maria insiste:

–– Quando criança, ela arrancava a cabeça das bonecas; maltratava animais, mas não é doente, não, quem sabe... só quer me enfezar. Sempre que vem aqui, traz o molho de chaves na mão fechada, como se segurasse um tesouro valioso. Nem para comer abre a mão. Meu Deus! Devo ter cometido muitos pecados, ou fui muito ruim em outra vida... Ela é meu carma.

— Você se engana, irmã! Nem nesta, nem na outra vida foi pecadora. Belinha, sim, nossa irmã, é de mal com a vida e tem miolo mole. O médico que a examinou nos garantiu que havia uma veia entupida na cabeça dela e que poderia se romper a qualquer momento; devemos ser compreensivos, se a veia arrebentar, vamos nos culpar pela sua morte. Paciência, paciência, pois!

— Ah, bem, isto é verdade! Belinha um dia ajoelhou-se na minha sala e falou: “Te peço, de joelhos, que pare de entrar na minha casa pra me roubar!” É quase impossível entrar na casa dela, pois tem tetra-chave, trinco e olho mágico na porta principal e, após ela, outra porta de grades de ferro. Ela quer me enlouquecer ou me matar de raiva.

Este diálogo e muitos outros, na mesma direção, tinham lugar entre os dois irmãos solteirões. Quando Belinha chegava a casa deles, cessavam as conversas, só sussurros. O baixo-astral imperava.

Sem dúvida, Belinha era um vampiro de energia.

“Ela tinha culpa de ser assim? Deus que o diga”. – Pensou Pedrão, o irmão.

Pedrão e Maria moravam em frente ao apartamento de Belinha. Esta, todo o dia,

descia as escadas e ia atanazar os irmãos, do outro lado da rua.

Pedrão, solteirão, gostava de plantar hortaliças e ficava “pau da vida” quando Belinha colhia as mais tenras.

A briga era constante.

Certo dia:

— Posso apanhar uns quiabos?  – perguntou Belinha. E foi entrando na hortinha.

— Pode, mas trate de pegar os de baixo do pé.

Mas ela colheu exatamente os de cima, só para provocar o irmão.

Pedrão ralhou:

— Falei para apanhar só os de baixo, mana... Você é muito atrevida!

— Fique com os quiabos! Atirou-os ao chão e os pisoteou.

Finalizou raivosa:

— O demônio está nesta casa!

— Só se veio com você! – Contestou Pedrão. E completou: Aqui em casa, habita Deus, nosso Pai.

Belinha saiu vendendo azeite dizendo ser uma mulher abandonada, desprezada e que ninguém gostava dela; mal-amada, enfim.

De certa forma era verdade, pois, ranzinza ao extremo, intratável com todos os parentes, tinha visão distorcida da vida. Se alguém dizia que havia sol, ela contestava que estava muito quente; se gostavam de algo, ela odiava ou fingia odiar. Era do contra.

Maria se voltou para o irmão após o entrevero:

— Viu os olhos dela? Se olhar matasse... Estranho... ela chora sem lágrimas...

            Mas Pedrão estava tranquilo e complementou:

— Deus não dá asas à cobra, acredito no sobrenatural e temos que nos libertar de Belinha definitivamente. Ela é má. Vamos colocá-la numa casa de repouso. Acho que está possuída. Se existe caso de possessão, esse é um...

E assim viviam os três irmãos: às turras, porque Belinha era absolutamente intratável, encrenqueira e ignorante.

Pedrão e Maria consultaram os outros parentes e decidiram internar a brigona Belinha, após a deplorável e mesquinha questão dos quiabos. Não se entendiam, mesmo, melhor dar um basta!

E ela foi internada no asilo sem liberar em momento algum as suas chaves. Não iria deixar sua casa à mercê dos outros. Esperava, assim, proteger seu patrimônio dos abutres, como ela se referia aos irmãos.

Belinha, agora hóspede na casa de repouso: O Sabiá Feliz não demoraria a  encrencar. Lá, se recusou a liberar as chaves, fosse sob pressão ou adulação.

Diga-se em seu benefício que tinha suas razões:

Na visita às dependências não gostou do que viu. Deduziu que não havia segurança eficaz, e que os idosos ficavam jogados ao deus-dará, nos quatro cantos da majestosa mansão. Numa sala extensa e estreita, muitos velhos alquebrados assistiam a um programa, sem som, na TV. Pareciam alheios ao ambiente.

Os quartos apertados, congestionados de camas e gentes seminuas. Havia até beliche para os idosos mais ágeis. Ela observou que os lençóis eram de pano ordinário.

“Tão deprimente”.

A farmácia era pequeno enclave debaixo da escada: vidros de remédio abertos, algodão sujo aqui e ali; seringas jogadas ao acaso, com resíduos ou manchas de sangue.  A escada que dava acesso ao segundo andar, por absurdo que fosse não tinha corrimãos, talvez para facilitar a queda dos velhos pensionistas. A sala de jantar parecia cantina de exército, ou pé-sujo de quinta categoria. No freezer, misturados com plasma, bolsas de sangue e insulina, havia dois míseros pedaços de carne enfiados em ganchos. Ela estranhou, mas lhe disseram que a geladeira estava enguiçada. Os sanitários eram imundos, com sinais de fezes nas paredes.

Sabiá Feliz era literalmente um despejo de gente.

“Que vergonha! – Pensou”.

Quando todos se deitaram, ela constatou que os idosos eram maltratados e só tinham um mísero cobertor de flanela para se cobrirem. Alguns pacientes pareciam dopados.

Ela fingiu dormir. Nisso era boa artista: fingir. Enganadora a vida inteira.

Excluindo os roncos, tudo era silêncio. Belinha se levantou sorrateira e suavemente atravessou a sala e, em seguida, se dirigiu ao portão da rua.

Portão fechado.

“Sem problemas, estava com as chaves na mão. Alguma deveria servir”.

Ouviu-se a voz:

–– Que está fazendo?

Era a governanta, que a segurou pelos ombros.

–– Dê-me as chaves, daqui só se sai para o cemitério!

–– Não dou!

–– Dá!

–– Não...

A vigilante, uma virago, abriu a mão de Belinha, tomou-lhe o chaveiro.

–– Minhas chaves! – Choramingou Belinha.

A supervisora fingiu engolir as chaves.

 –– Engoli!

E pôs a língua para fora.

Belinha nada disse. Foi mansamente se deitar.

Aos primeiros cocoricós do galo, levantou-se como um fantasma e foi ao freezer pegar um gancho.

Parecia alegre, murmurava baixinho, quase inaudível: “Chorei, porque fiquei / Sem teu amor...”.

No quarto individual dormia a serviçal:

“Vim buscar minhas chaves”.

Passou o gancho no pescoço da enfermeira e a dependurou na porta.

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