Matéria Especial Benficanet - 10/06/2019
SIM e NÃO

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Asséde Paiva

Volta Redonda, 2/2/2019

“Sim e não como dois territórios vizinhos, entre os quais há uma fronteira, um limite. Como dois lados da mesma moeda, duas partes que formam o todo, portanto um só pode existir onde o outro puder existir também. Dizer sim ou não pode e deve ser uma questão de escolha pessoal”.

Sim é sim, não é não (Mt 5:37)

Sim, yes, si, oui, ken // Não, ne, no, neit, nein, non

Eu estava fazendo minha caminhada pela manhã, por recomendação médica e pensava na direção a tomar, quando atravessou na minha frente um animal... um gato preto, pois ele tinha este tom. Logo vi que estava enganado porque era um cachorro. Imediato, decidi fazer uma fezinha, mas não costumo jogar no bicho, então fui a uma loteca à procura e um bilhete da Loteria federal. Na rua havia uma loteca. Infelizmente, não achei o número final 29. Mais tarde, em outra loteria encontrei o número tão procurado: 76729. Comprei-o sem regatear. Palpite furado, não deu o número que comprei. Ao adentrar num shopping me deparei com uma banca de doação de livros, patrocinada pelo Rotary local. Peguei o primeiro livro que encontrei e ao folheá-lo vi, na página 75, duas informações: uma dizia que o prêmio sairia para o final 29. Peguei o livro distribuído gratuitamente. Nele havia um capítulo que tinha o título SIM e NÃO. Sobre o tema, eu pensava em escrever a muito tempo, todavia, sempre deixando para depois e foram anos... Coincidências acontecem... Achei muito, muito interessante a abordagem do autor e vou transcrevê-la, com todo respeito, ipsis verbis, após dizer o que quero dizer:

O SIM está definido no Houaiss como segue: Advérbio que exprime afirmação, aprovação, consentimento. Portanto, quando ouvimos um “sim”, nossa alma se abre em alegria, porque fomos atendidos. Qualquer que seja o pedido, o sim facilita as relações humanas e o indivíduo que o recebe se sente gratificado.

O SIM acaricia nossa alma.

Acontece que dois sim revela começo de enfado: Sim! Sim!

O NÃO está assim definido no Houaiss: Advérbio que expressa negação. Eu penso que essa negação é muito dolorosa, nossa alma se contrai, fecha em concha ou em copas; nossa expressão facial demonstra isso e damos um sorriso amarelo.

Eu trabalhei com o erudito Hermínio Corrêa de Miranda, que havia escrito uma apostilha sob o título Correspondência comercial moderna e nela abordava, com clareza e sabedoria, o modo de evitar o verbete NÃO. Infelizmente, perdi a apostilha citada, mas ficou em minha memória que ele recomendava usar o Não com sutileza, para evitar constrangimentos ou reações hostis. Lembro-me de uma frase que ele anotou: Não fale com o motorista. Diga o mesmo, sem usar o agressivo NÃO, mudando-a para: Falar com o motorista é perigoso. Não pule a catraca! Pular a catraca é crime. Sua fatura não foi paga. Sua fatura está pendente. Não bata a porta! Feche a porta devagar.

Eu concordo em gênero, número e grau com Hermínio Miranda. Evite o NÃO direto, inclemente. É um aríete em nossa esperança, em nosso desejo ou expectativa. Utilizando o poder da vírgula, você pode transformar uma frase negativa em positiva: Não vou ganhar. / Não, vou ganhar, Não vou perder. / Não, vou perder; e assim por adiante. O NÃO, duro, dói muito; o Não, segundo Heidegger, exprime a limitação fundamental da nossa existência; a exclusão das possibilidades sempre implícitas nas escolhas das que o ser-aí (que é o homem) inclui em seu projeto.

Na linguagem dos gestos e sinais, com a mão fechada, exceto o indicador que é movimentado horizontalmente para os lados significa não. E se se movimentar conjuntamente o braço é não definitivo, sem discussão. Já, o polegar para cima, imóvel diz SIM; e, virado para baixo é NÃO. Mover a cabeça da direita para a esquerda = NÃO; de cima para baixo = SIM.

Na base do olhar, o “não” é mais fácil, é só evitar o olhar do outro/a, principalmente nas paqueras/azaração.

No campo dos símbolos e da analogia, podemos deduzir que o limpador de para-brisa posto a funcionar, na chuva ou neblina, diz não! não!

Uma estrada sinuosa diz não; o pêndulo também diz não.

Passamos, a seguir, à transcrição do texto do livro Arroz de palma, de Francisco Azevedo, Ed. Record, 2017, p.183: O sim e o não:

Nossa língua tem coisas engraçadas. Exemplo? Aqui, no Brasil, não damos o sim como resposta. Damos o verbo. Você lembra o que aconteceu? Lembro. Quer lembrar mais? Quero. Sabe o que isso significa? Sei. E por aí vai sem nunca pronunciarmos um único sim. Com a negativa é diferente. Dizemos não e pronto. Você lembra o que aconteceu? Não. O não é imediato, preciso, definitivo. O sim se omite. Não se impõe. Cismo. Até no gesto o sim vem antes do não. O recém-nascido, primeiro diz sim ao peito. Só depois, farto, diz não. Vou mais fundo e me dou conta de que o sim é movimento para cima e para baixo. O não é movimento para os lados. Por isso, para bem ninarmos um bebê, é preciso balançá-lo de leve com sins e nãos alternados. Ao se familiarizar com os dois polos, ele dormirá tranquilo [...].

Somente no dicionário o não vem antes do sim, e lembremos que NÃO também é resposta: Pois SIM!

Não desesperemos, porém, ao longo de nossa existência, os “sim” e os “não” servem para nosso crescimento moral e espiritual: “Seja, porém, o teu sim, sim! E o teu não, não!” Mateus 5:37.

 

Quem tem medo de dizer não?

A gente vive aprendendo 
A ser bonzinho, legal, 
A dizer sim para tudo, 
A ser sempre cordial. 

A concordar, a ceder, 
A não causar confusão, 
A ser vaca de presépio 
Que não sabe dizer não! 

Acontece todo dia, 
Pois eu mesmo não escapo, 
De tanto ser bonzinho, 
Tô sempre engolindo sapo.


Como coisas que não gosto, 
Faço coisas que não quero. 
Deste jeito, minha gente, 
Qualquer dia eu desespero. 

Já comi pamonha e angu, 
Comi até dobradinha. 
Comi mingau de sagu, 
Na casa de uma vizinha.

Comi fígado e espinafre, 
Com medo de dizer não. 
Qualquer dia, sem querer, 
Vou ter de comer sabão! 

Eu não sei me recusar, 
Quando me pedem um favor. 
Eu sei que não vou dar conta, 
Mas dizer não é um horror! 

E no fim não faço nada 
E perco toda razão. 
Fico mal com todo mundo, 
Só consigo amolação.

Quando eu estudo a lição 
O colega não estuda, 
Na hora da prova pede 
Que eu dê a ele uma ajuda. 

Embora ache desaforo, 
Eu não consigo negar. 
Meu Deus! Como sou bonzinho,
Vivo só para ajudar.

Se alguém pede emprestado 
O disco do meu agrado,

Sabendo que não devolvem, 
Ou que o devolvem riscado. 

Sou incapaz de negar, 
Mas fico muito infeliz. 
Qualquer um, se tiver jeito, 
Me leva pelo nariz.

Depois que eu estou na fila 
Pra pagar o supermercado, 
Já estou lá há muito tempo. 
Aparece um engraçado. 

Seja jovem, seja velho, 
Se mete na minha frente, 
Mas eu nunca digo nada, 
Embora eu fique doente. 

A gente sempre demora 
A entender esta questão: 
Às vezes custa um bocado 
Dizer simplesmente, não! 

Mas depois que você disse 
Você fica aliviado 
E o outro que lhe pediu 
É que fica atrapalhado.

Mas não vamos esquecer 
Que existe o "por outro lado" 
Tudo tem direito e avesso, 
Que é meio desencontrado.

Quero saber dizer NÃO. 
Acho que é bom para mim.

Mas não quero ser do contra, 
Também quero dizer SIM!

(Adaptado de Ruth Rocha, na Internet)

Há os que preferem usar a palavra TALVEZ (advérbio que indica possibilidade, mas não certeza), em vez do “sim” ou do “não”. Todas as palavras têm hora e vez no discurso e estão em nosso léxico, mas talvez não é sinônimo ou alternativa de sim ou de não; significa que o interlocutor tem posição dúbia: nem sim, nem não; e sente tremenda dificuldade em dizer NÃO, porque “não” é definitivo, sem a possibilidade de reversão de expectativa. No caso de talvez, o falante prefere ficar em cima do muro, a ser curto e grosso, e conceder esperança a alguém sobre algo que não vai acontecer, ou não vai se concretizar.

Talvez, do latim talis: “tanto, semelhante, tão grande”, mais vicem: “mudança, troca, volta”.

Nos dicionários, “Talvez” tem os significados:

Quem sabequiçáporventurapossivelmenteprovavelmenteacasodecerto.

 

O texto, a seguir, foi retirado na Internet e por nós melhorado:

Não dizemos o que queremos dizer. Falamos sim, quando queremos falar não, negamos quando queremos consentir; um talvez pode significar “não” ou significar “sim”. Por que temos medo de dar a nossa opinião verdadeira?

Sem dúvida, muitas vezes nos vemos presos em situações nas quais não gostaríamos de estar desde o princípio, por não sabermos dizer “não”; às vezes, por medo das reações de outras pessoas, ou por compromisso ou por pura insegurança e timidez. A razão não importa. O que é importante é estarmos indo contra nós mesmos ao desconectarmos o que pensamos e desejamos, do que dizemos.

Seguem excertos de famosos sobre o tema sim e não:

Toda vez que você diz sim, querendo dizer não, morre um pedacinho de você. (Albert Einstein)

Hoje estou aprendendo a dizer não. Quando não quero alguma coisa, simplesmente digo não. Sem raiva nem emoção. Um não é só uma negativa. É nosso limite. Um direito que temos de decidir o que desejamos ou não fazer. A isso se dá o nome de dignidade. Quando nos colocamos com sinceridade, dizendo o que sentimos, somos respeitados. (Zíbia Gasparetto).

Um não dito com convicção é melhor e mais importante que um sim dito meramente para agradar, ou, pior ainda, para evitar complicações.

(Mahatma Gandhi)

Cuidado ao dizer um não, ou um sim, ou um nunca mais, ou para sempre. Eles podem mudar sua história. São palavras simples, com força enorme. (Renato Russo)

Eu acredito que é importante a gente aprender a dizer não. Toda a minha vida eu disse sim. Sim, eu faço. Sim, eu cuido. Sim, eu assumo. Sim, eu me rendo. Sim, eu aceito essa pizza. Sim, eu levo. Sim, eu busco. E isso só me fez mal. Já fui usada, já fui traída, já fui negada, já fui rejeitada, já fui humilhada. Já fui um pouco de tudo. (Clarissa Corrêa)

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