Matéria Especial Benficanet
V O G A I S   A V O A N T E S - 19/01/2016

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As vogais em convenção discutem assunto de magna importância.

Em silêncio, “A” pega o bloco de papel e escreve: * q** *c*nt*c*r** s* d*s*p*r*c^ss*m*s d* t*xt*? V*m*s p^r *st*r*sc*s, *m n*ss* l*g*r, d*p**s r**p*r*c*r, h~* d* r*c*nh*c*r n*ss* v*l*r.

Passa a nótula adiante, nem uma vogal entendeu. Elas contestavam o tratamento subalterno recebido das consoantes. Em mesa-redonda concluíram ser indispensáveis por natureza e iriam mostrar quão relevantes eram à luz do dicionário, pois estavam certas de que superavam as consoantes, não em número, mas em importância.

A quebra o silêncio traduzindo o significado do parágrafo supra com todas as letras: O que aconteceria se desaparecêssemos do texto? Vamos pôr asteriscos em nosso lugar, depois reaparecer, hão de reconhecer nosso valor.

Sou prima inter pares: a primeira vogal, artigo definido, pronome pessoal, oblíquo e demonstrativo; substantivo, interjeição, prefixo, preposição, indicador de gênero feminino. Sou casca de banana, nos deslizes dos escritores, como crase. Também padrão de excelência (classe a, categoria a, série a). Estou no correio eletrônico: @, utilizado nas mensagens entre internautas.

E (vogal) intervém, e expressa alinhamento e contentamento:

–– O texto lido por A, pleno de estrelinhas parece mensagem em código, mistério para leigos. Só equipe especializada em criptografia poderia decifrá-lo. Encaminharemos abaixo-assinado pedindo a instituição do dia nacional da consciência vocálica. Viva para monotongo, ditongo e tritongo! O mundo se curvará ante nós. Quero título de nobreza construindo belíssimos polissíndetos como conjunção e, e a badaladíssima interjeição é! Nem uma das vogais pode ser verbo senão eu. É pôr acento agudo em mim e me transformo em é, do verbo ser, sem esquecer de que também sou vogal temática, prefixo e sufixo; estou na internet, através de e-mail, e-book, e-commerce. E acrescenta: Na verdade, quem é sábio lê nas entrelinhas. Um apedeuta notaria que os asteriscos usados servem para indicar nossa ausência. Na frase normal, após nossa defecção só existirão espaços em branco e, as consoantes perderão sentido num vácuo epistolar.

I, a terceira vogal na sequência, conhecida como linguiça, dá seu palpite, pois é parte interessada e nada modesta:

–– Ixe, ipre, irra! Se tamanho importa, saibam todas vocês que sou substantivo: “fila i”; interjeição onomatopaica (iiii ou ihihih!), indicando risos, relincho dos equinos e asininos; vogal temática da terceira conjugação; também prefixo e sufixo. Em uma polêmica dizem: vou pôr os pingos nos ii. Quem os põe noutra vogal? Ninguém, salvo na consoante j.

J, anzol, escoteira, pescava no derredor, ao ouvir seu nome zangou-se:

–– Cale a boca, você nasceu de mim. Esticaram-me na curva da estrada e alguém gritou:

–– Ih, parece I...

–– Desde então, alternamos na mais sagrada sigla quaternária: JNRJ/INRI (Jesus Nazareno, Rei dos Judeus).

De mansinho, vai chegando O e põe a colher de pau no angu de caroço:

–– Pô, ah eu aí, uai! Parem esse debate. Importante eu sou e estou na origem do universo. Lembrem-se do som do big bang: oooooooooooooooooom! O cântico do mahá mantra (o grande mantra), ooooooooooooooM. Escutem-me no carnaval: ôôôô-ôôôô-ôôôô! Sem mim a folia seria chocha, sem cadência e eurritmia. Ad argumentandum tantum (só para argumentar), sou interjeição de apelo alertando a existência de um vocativo; substantivo; artigo; pronome demonstrativo e pronome oblíquo.

U entra no debate vaiando:

–– Fiau-fiau, úúúú! Exijo coliderar ou tranco a pauta! Sou a última vogal, mas está escrito no Livro dos Livros que os últimos serão os primeiros...

E saudoso do passado de glória citou os pinguinhos que faziam tremer os iletrados. Quanta saudade do qüinqüelíngüe... Era admirado pelos cultos e temido pelos ignorantes.

Então, consultaram o Aurélio Séc. XXI (cujo nome indica a relevância das vogais, porquanto acolhe todas: Au* é* io). O Aurélio registrava na contagem de páginas, A com 247, e U, com 18. No quesito quantidade, A venceu U.

Alguém no fundo do auditório pediu pela ordem: era Y que para chamar a atenção do plenário, levanta os braços como se rendendo.

–– Represento nesta augusta assembleia a moderníssima geração Y, também conhecida como “milenial”. Fui defenestrada do abc por anos, agora retorno do ostracismo, com honrarias. Tenho foros na lexicografia, com restrição, mas sem solidão. Quem traz Y no nome, tem um quê de nobre. Reino em palavras estrangeiras; sou cromossoma Y; estrela anã, Y; marco da geração nerd; Y de Ítrio. A Academia Brasileira de Letras (ABL) me tem como semivogal ou vogal.

Havia ciúme explícito entre as vogais, porém A resolve apaziguar:

–– Nós temos força extraordinária através dos tempos, observem-nos na imperial sigla AEIOU = Austriae Est Imperare Orbi Universo (É destino de a Áustria dominar o mundo inteiro). Somos verbalizadas aeiouar para representar o uivo do vento, em Grande Sertão Veredas. Também expressamos emoções humanas (aiaiai, ah-ah-ah, eee, iii, ôôô, uuu).

Concordam que são imprescindíveis ao léxico, ainda lhes falta muito para que vivam independentes. A insana dissidência trouxe Incalculável prejuízo à lexicografia. O número de verbetes é reduzido drasticamente. Ninguém lê com clareza; falam pidgin. Pensavam levar a comunicação em nível de grunhido: de ortofonia para cacofonia.

Luminares das letras deploravam o desatino obscurantista:

“Adeus poesia, conto, cromo, crônica, romance e fábula! Adeus novelas, cantigas, trovas, jograis e acalantos! Sonetos, nunca mais!”

As consoantes, principais interessadas na clareza da comunicação, convocaram reunião de cúpula. Houve encontros vocálicos, consonantais e hiatos. Na discussão, ameaças mútuas: consoantes sinalizam com a bomba “H” (Hiato/nica); vogais fazem bravatas com a bomba “A” A/fônica (para o eterno silêncio); a letra “H” acha que é momento de reflexão, diz que falará na hora “h”. A coitada corre o risco de ser eliminada por mudez crônica.

Consoantes chutam o pau da barraca:

–– Podemos sobreviver sem vogais! Somos siglomaníacas desde a antiguidade damos como, por exemplo, a que aterrorizava os bárbaros: SPQR Senatus Populus Que Romanus = Senado e o Povo Romano, inscrita nos estandartes das legiões romanas, e em milhares outras que dispensam vogais.

Vogais pirrônicas exigem rendição; rechaçadas, se exaltam:

–– Nós somos autossuficientes, podemos cassar os fonemas das consoantes. Somos suas bengalinhas, não há som nas letras consonantais, são afônicas por natureza.

As consoantes não são tolas, desconfiam das insurgentes e da cilada em andamento; antecipam-se à jogada desleal. Alegando serem garroteadas no direito fundamental de existir impetram Mandado de Segurança, pela manutenção dos seus fonemas, concedido pelo juiz Alofone, que exarou no writ:

“Defiro. Vogais fazem terrorismo linguístico com irreparável prejuízo lexicogênico”.

Vogais, ranzinzas como que, conspiram e decidem abandonar a cimeira na maior algazarra:

A aaaa! –– dando gargalhadas;

E êêêêê! –– mostrando insatisfação;

I ....iiiiiiii! –– relinchando como cavalo;

O ..ôôôô! –– cantado refrão de escola de samba;

U....úúúú! –– com vaia tonitruante;

Y ...comandando todas: aeiouypsilón! –– Orneando tal onagro.

O evento registrado na gramática histórica como a estultice das vogais.

Após o caos inicial, assentado o pó do levante, as consoantes se reorganizaram. W por ser transformista (pode ser dois uu ou dois vv), pede a palavra:

–– Seguramente, informamos mais do que vogais; informação é poder, somos maioria, temos proteção jurisdicional. Esse imbróglio precisa acabar, e o nó desatado. Se não, instituiremos a linguagem dos berros, silvos e assobios.

Decidem incrementar a comunicação por gestos, sinais, e a leitura labial. A Linguagem brasileira dos sinais (Libras) é revisada; ampliaram o uso dos números; aprovaram o internetês como escrita básica: bs<beijos; blz<beleza; cmg<comigo; fmz<firmeza; hj<hoje; kd<cadê; kkk<risos; ñ<não; nd<nada; p<para; pq<porque; pt<ponto; q<que; qq<qualquer; t+<até mais; s<sim; vc<você; rsrs<risos; td<tudo; tx<táxi; vlw<valeu etc. Frases eram escritas deste modo: Cpcbn, prncsnh d mr (Copacabana, princesinha do mar). Incrementou-se a troca de bens: um sabão poderia significar ‘vai tomar banho!’ Renasceu a linguagem das flores. Consideraram a ausência de vogais como oportunidade para evolução e/ou criação de novas palavras. É posta em marcha a Faculdade de Ciências Mímicas e Letras Consonantais (FCMLC). Instituíram a escrita semítica (sem vogais), e não houve o caos esperado para enorme decepção das reclamantes. Ocorreu notável aumento da pantomímica. O corpo fala; utilizaram semáforos; adotaram sinais matemáticos e pictogramas. Grande afluxo de quadrinhos (HQs). As falhas em “br nc ”, no texto, indicavam a falta de vogais. Com dados estatísticos, diziam-se imbatíveis como no siglema Petrobras: P tr br s, autoexplicativo; e no logogrifo IKHYTS (do cristianismo primitivo), que sem IY fica KH TS (Khristos Theos Sotero = Cristo, Deus, Salvador), mantendo, pois, o sentido da mensagem sagrada.

Vogais se defendem apresentando termos como **r****´ = uariuaiú, bailado indígena; b**~* = baião=dança, t*****´ = tuiuiú, pássaro; quase indecifráveis sem elas, as vogais.

Tentativas para editar o vocabulário só de vogais redundaram em imenso fracasso; o mesmo fiasco se deu com o glossário de consoantes; ambos caricaturais.

Em assembleia extraordinária as vogais foram derrotadas e se curvaram. O vento não é favorável para as travessas avoantes; pousaram na pauta dispostas a reescrever o léxico. Humildes, reconheceram que a escrita corria o risco de retroceder ao tempo dos fenícios. Valia a coexistência pacífica.

U faz bela retórica, pois é elemento-chave no apólogo:

–– Acabou o milho acabou a pipoca. Negar valor às consoantes é como negar a luz do dia.

Na doce essência da língua portuguesa, as vogais têm aconchego e colo. Aceitaram o retorno imediato ao dicionário, e em concerto cantaram a plenos foles, aeiouy, xaxado harmonioso, porreta.

Convidado a falar, X desvendou a incógnita:

–– Somos irmãs siamesas e mutuamente dependentes. Isoladas na grafia, somos patéticas e infelizes. Unamo-nos em corrente pra frente para doce soarmos (com+soantes).

XY se unem em cromossômico e fraternal abraço para conceber o DNA da vida; Z chancela o Novo Acordo Ortográfico decifrando a equação fundamental da lexicografia: A–Z = Volp.

Da aporia, a euforia: uruputum-uruputum-uruputum zabumba U na Avenida Vernáculo comemorando a magna concórdia P*nt*-f*n*l

 
  
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